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'Migrar é transitar': Hilse, dançarina venezuelana em Bogotá

Após chegar à Colômbia em 2018, Hilse León encara os desafios da migração através da dança – e dos ensinamentos dos pássaros

Cristina Juliana Abril Juanita Rico
11 Agosto 2022, 12.00
Hilse León encontrou na dança uma forma de lidar com sua condição de migrante
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Andrés Bernal Sánchez

“Tudo tem um significado único, especial, particular e extraterrestre”, escreveu Hilse em uma manhã de 2022, em Bogotá. Assim descreve sua experiência como migrante na Colômbia: uma sucessão de eventos incontroláveis ​​que a levaram a um novo território, a um novo país, no qual nada se sabe, mas tudo acontece como se predestinado – ordenado por um passe de mágica.

Hilse León é de Caracas, capital da Venezuela. Filha de um marionetista e de uma atriz de teatro, cresceu rodeada de arte. Hilse é dançarina contemporânea, professora de dança contemporânea, professora de pilates e estudante da arte da improvisação. Hoje, ensina dança na Pontifícia Universidade Javeriana.

Ela já havia estado na Colômbia antes. Mas quando viajou ao país com a filha em 2018 para visitar o pai, dediciu ficar, temendo que a crise sócio-política da Venezuela continuasse a piorar. "Não foi um processo planejado", diz. Para ela, assim como para a maioria dos quase 2,5 milhões de migrantes venezuelanos na Colômbia, sua migração lhe foi imposta.

Reconhecer-se como migrante não é fácil: “Minha alma não é de migrante; não tenho essa facilidade de transitar”, explica.

Transitar, o verbo usado por Hilse para descrever a mudança de um país para outro, descreve com precisão sua situação. Segundo a Real Academia Espanhola (RAE), significa passar ou andar de um ponto a outro por estradas ou localidades; percorrer.

Embora viajar não faça parte da essência de Hilse, o conceito foi assimilado através da dança. “A dança prepara o corpo para andar, para atravessar, para migrar, porque no fundo dançar é atravessar: um salão de dança, atravessar a si próprio, ao outro, e ao mesmo tempo deixar-se atravessar pela música, por outros corpos, pelo contato do outro. Me preparou para esse movimento que não foi muito bonito no começo, nem muito alegre, nem repleto de emoções bonitas.”

Hilse gesticula sentada em cadeira azul

Hilse em sua casa em Bogotá

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Andrés Bernal Sánchez

Nos múltiplos relatos documentados de migrantes que chegam à Colômbia da Venezuela, poucos afirmam estar preparados para transitar. Como no caso da Hilse, encontrar algo que ajude a facilitar o processo de migração é fundamental. "Para mim, o deslocamento geográfico, que implicava uma mudança absoluta de vida, era sustentado pela dança." Seu depoimento mostra que o enraizamento em uma nova terra também pode ser alcançado por meio da arte e da cultura. Ela percebe que, enquanto houver manifestações ou atividades que permitam aos migrantes ter um pólo de aterramento, atividade em que se sintam reconhecidos, sua adaptação a um novo país pode ser menos traumática.

No entanto, problemas estruturais que bloqueiam o processo de nacionalização dos migrantes venezuelanos muitas vezes impede o acesso a todos os seus direitos.

"Houve um tempo em que eu não dizia que era venezuelana", diz Hilse. “Preferia dizer que era costeña”, acrescenta. Costeños são aqueles que vivem nas áreas costeiras da Colômbia; seu sotaque é quase idêntico ao dos nativos da Venezuela, sendo facilmente confundidos.

Hilse León posa na varanda

Hilse León

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Andrés Bernal Sánchez

Ela escondia sua nacionalidade por medo da xenofobia. E quem pode culpá-la? Em 2022, a discriminação contra venezuelanos na Colômbia aumentou 3% em relação ao ano anterior, segundo o Barômetro da Xenofobia. Julio Daly, diretor da plataforma, afirma que nos primeiros cinco meses do ano essa taxa chegou a 12%, contra 9% no mesmo período do ano anterior.

Além da discriminação, Hilse também enfrentou barreiras financeiras durante os períodos em que não conseguiu se dedicar à sua profissão, a dança. Este é o principal desafio de todos os migrantes venezuelanos: encontrar formas de inserção no mercado de trabalho que lhes permitam viver com dignidade.

De acordo com um relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e da Pontifícia Universidade Javeriana da Colômbia, buscar emprego é a prioridade dos migrantes venezuelanos, 74% dos quais chegam em idade de trabalhar. No entanto, diante da grande oferta de capital humano, os níveis de empregabilidade da população migrante na Colômbia são muito baixos. Dados da Grande Pesquisa Integrada de Domicílios (GEIH – DANE) mostra que, entre julho de 2018 e junho de 2019, 93,5% dos migrantes careciam de contrato formal de trabalho. Entre mulheres migrantes venezuelanas, o desemprego na Colômbia ultrapassa os 91%, segundo o mesmo estudo. Para os migrantes, a única saída parece estar na economia informal, que é muito alta na Colômbia.

Os números mostram que migrantes venezuelanos, particularmente mulheres como Hilse, mesmo tendo uma formação e um ofício, estão em situação de alta vulnerabilidade.

Hilse sente essa fragilidade todos os dias, apesar de não ser fácil de expressar ou compreender: “Você começa a viver em um tempo muito particular. Você sente falta de algo, mas não sabe do que sente falta, você está bem, mas não está muito bem... é como se fosse um tempo muito diferente."

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Hilse León.

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Andrés Bernal Sánchez

Tal sentimento pode ser interpretado como o desenraizamento que a migração forçada cria. Entre 2016 e 2021, um grupo de pesquisa do Instituto de Saúde Pública da Pontifícia Universidade Javeriana investigou a saúde mental de migrantes venezuelanos na fronteira de Cúcuta, por onde entra o maior número de venezuelanos na Colômbia.

Os pesquisadores coletaram informações sobre expectativas e experiências relacionadas a viagens, relações sociais e familiares, reações emocionais, físicas e cognitivas e o impacto da pandemia sobre os migrantes. Para isso, ouviram mais de 400 pessoas, incluindo migrantes, funcionários públicos e especialistas em migração. Sua conclusão foi que a migração afeta significativamente a psique de quem a vivencia, observando que 50,6% dos migrantes venezuelanos ​​sofrem de depressão, ansiedade ou usam substâncias psicoativas a partir do momento em que se viram obrigados a migrar.

Hilse cita a poetisa e escritora uruguaia Cristina Peri Rossi que, em seu livro de poemas "Estado de exílio", explica o sentimento da seguinte forma: "Se o exílio não fosse uma experiência humana terrível, seria um gênero literário. Ou ambas as coisas ao mesmo tempo.”

Livro sobre pássaros venezuelanos

Livro sobre pássaros venezuelanos

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Andrés Bernal Sánchez

O exílio não é uma escolha; é uma mudança forçada de lugar; é ser “desenraizado” da própria terra e transplantado para uma estranha. É uma ruptura, uma mudança de costumes, de ideias sobre a vida. O exílio nos acostuma a desacostumarmos. Essa fratura na identidade dos exilados, conforme reconhecido pelas Nações Unidas (ONU), aprofunda a vulnerabilidade do migrante. Os esforços para reconhecer os migrantes venezuelanos como refugiados são, portanto, essenciais.

Hilse usa o conceito de terredad – de terra, algo como "terreidade", cunhado pelo poeta venezuelano Eugenio Montejo – para explicar o papel da dança em sua jornada. Segundo Montejo, a terredad é a estranha condição do homem na terra de se ver entre dois nadas, preso entre o que é e o que não é, em sua sombra. Para Hilse, essa terredad, que nos pássaros está associada ao seu canto, para ela como bailarina e migrante, está diretamente associada ao fluxo de seu corpo em movimento, ou ao que ela chama de "o vôo da dança".

Seu depoimento mostra que um dos grandes desafios para os migrantes, em todas as partes do mundo, é encontrar nos países de destino os mecanismos para realizar as tarefas para as quais foram preparados. Inevitavelmente, eles terão de enfrentar situações econômicas, sociais ou sanitárias precárias, mas encontrar um emprego é, sem dúvida, o primeiro passo para enfrentar a situação traumática de ter sido forçado a abandonar tudo em busca de uma vida digna ou, simplesmente, da sobrevivência.

Hoje esta poderosa mulher venezuelana vive da dança novamente, e busca sua terredad em um novo país. No entanto, como milhões de seus companheiros da diáspora, não abandona o afeto por sua terra natal e a possibilidade de retornar.


Este artigo faz parte da série "Caminhantes na fronteira da migração", que conta com apoio da Fundação Ford. Leia a parte 1, parte 2, parte 3 e parte 4.

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