democraciaAbierta: Analysis

O isolamento pandêmico está aumentando o extremismo ideológico?

Extremistas de direita estão se aproveitando das restrições da Covid-19 e das teorias da conspiração para recrutar novos membros.

Natalie James James Hardy
20 Maio 2021, 12.00
indivíduos que ficaram isolados e excluídos são mais propensos a se envolver com grupos extremistas
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Shotshop GmbH/Alamy Stock Photo

Embora a maioria dos países tenha estado sob alguma forma de quarentena nos últimos 12 meses, tem havido uma discussão crescente sobre os efeitos prejudiciais do isolamento prolongado e da falta de coesão social – não apenas na saúde mental das pessoas, mas em sua vulnerabilidade a várias formas de extremismo.

No ano passado, o chefe da Unidade de Extremismo e Contraterrorismo do País de Gales (WECTU, por sua sigla em inglês) alertou que a pandemia poderia aumentar o risco de radicalização entre os jovens. Há temores de que a direita radical tenha descoberto uma oportunidade de alinhar as críticas e teorias da conspiração da Covid-19 com os antigos tropos e narrativas de extrema direita.

O isolamento social, ou solidão, é reconhecido como uma das vulnerabilidades que pode levar à radicalização ou potencial exploração, de acordo com a CONTEST, a estratégia antiterrorismo do Reino Unido.

O isolamento exacerba problemas existentes, deixando os indivíduos vulneráveis ​​ao extremismo, como afirmam psicólogos sociais e especialistas em radicalização. Um estudo recente mostra que aqueles que sofrem exclusão social relataram fortes sentimentos de “raiva, frustração, tristeza”, acompanhado de “baixa autoestima [...] e existência menos significativa”.

Psicólogos argumentam que, para recuperar esse sentimento de pertencimento, os indivíduos podem se tornar mais abertos a oportunidades de inclusão social – mesmo que isso signifique fazer parte de um novo grupo que defende pontos de vista muito diferentes dos seus. O mesmo estudo mostra que indivíduos que ficaram isolados e excluídos têm mais probabilidade de se envolver com grupos extremistas, em comparação com pessoas que não estão isoladas.

No entanto, seria impreciso e problemático sugerir que o isolamento é um marcador determinável de vulnerabilidade potencial ou uma explicação causal do extremismo de extrema direita.

O isolamento exacerba problemas existentes, deixando os indivíduos vulneráveis ​​ao extremismo

O isolamento forçado provocado pelas quarentenas da Covid-19 agrava as experiências existentes de exclusão ou privação social, como a incapacidade de acessar oportunidades econômicas.

Especialistas exploraram o papel da insegurança econômica, bem como as experiências de exclusão social, como motores de processos de radicalização da extrema direita. Esses fatores não são determinantes da radicalização, mas foram agravados pelas respostas oficiais à pandemia.

Terreno fértil

Antes do surto de Covid-19 no Reino Unido, as regiões com os mais altos níveis de encaminhamentos para o centro de radicalização do Reino Unido incluíam Londres, o Noroeste e o Nordeste.

Essas também foram as regiões mais duramente afetadas pelas medidas de combate à pandemia, com quarentenas e regulamentações mais rígidas do que em outros lugares. Elas também sofreram consequências econômicas e sociais mais extremas devido ao fechamento de empresas, locais de trabalho e escolas.

A ONU projetou que a limitação das liberdades – especialmente com “autoridades locais impondo medidas preventivas de Covid-19 à força” – poderia levar à privação de direitos dos membros mais vulneráveis ​​da população. As críticas às restrições também se misturam com teorias de conspiração e desinformação.

Além disso, mais pessoas estão sem trabalho ou educação devido à pandemia, o que pode agrava problemas existentes.

Tudo isso gera um terreno fértil para a extrema direita, que pode prosperar explorando essas desvantagens em seu próprio benefício e empurrar pessoas para o caminho da radicalização.

Fora da escola

O fechamento de instituições de ensino contribui para essa preocupação. O setor de educação é responsável continuamente por cerca de um terço de todos os indivíduos encaminhados ao Prevent, programa do Reino Unido que visa diminuir a ameaça do terrorismo. Esse processo de encaminhamento funciona através de funcionários do setor público, incluindo professores, que têm a tarefa de identificar sinais preocupantes em sua prática cotidiana.

O fechamento de escolas inevitavelmente limitou o contato entre alunos e professores, pois transferiu o aprendizado da sala de aula para os espaços online. Pesquisas recentes mostram o importante papel do corpo docente – não apenas nesses processos de encaminhamento de uma perspectiva governamental, mas no apoio aos alunos de uma perspectiva de salvaguarda. Limitar o contato e o diálogo em sala de aula torna mais difícil para a equipe reconhecer quando os alunos estão enfrentando desafios.

Essas oportunidades limitadas de apoio institucional, em combinação com maior isolamento, podem expor pessoas marginalizadas e excluídas ainda mais a narrativas de extrema direita. O número de referências para conteúdo de extrema direita aumentou 43% entre 1 de janeiro e 20 de novembro de 2020.

Recrutamento online

Embora os alunos tenham retornado às escolas físicas no Reino Unido, o aumento do uso de espaços online permanece em vigor enquanto aguardamos um "retorno ao normal" completo.

Os indivíduos que interagem com a extrema direita nem sempre agem por conta própria. Extremistas carismáticos deliberadamente visam jovens que podem ter se tornado socialmente isolados e entediados com as medidas da Covid-19. Eles percebem uma oportunidade de recrutar novos membros, promulgando teorias da conspiração sobre a pandemia.

Isso está se tornando mais difícil de monitorar à medida que o número de usuários que ingressam em canais criptografados associados à extrema direita, como Gab ou Telegram, aumentou durante a pandemia. Só o Telegram conquistou 100 milhões de novos usuários entre abril de 2020 e janeiro de 2021.

As pessoas também estão passando mais tempo online. O Conselho da União Europeia alerta que a direita radical está “capitalizando a crise do coronavírus” ao adaptar sua narrativa para abranger as conspirações da Covid-19 como meio de recrutamento.

Ideólogos da direita radical empregaram campanhas de desinformação para promover uma série de teorias da conspiração, como a existência de uma "Plandemic"; Bill Gates e microchips de vacina; e subversão por minorias raciais.

Uma ameaça crescente

Curiosamente, o discurso se tornou tão forte que extremistas de direita sondam negacionistas da Covid-19 e, ao mesmo tempo, atraem aqueles que acreditam que o vírus é real. Um relatório do Community Security Trust mostra como os tropos antissemitas prevalecem nas teorias da conspiração divulgadas pela extrema direita.

Mas a população judaica não está sozinha em se ver envolvida nessas conspirações. Afirmações de cientistas ligados a Steve Bannon de que o governo chinês está tentando eliminar a raça branca por meio da disseminação da Covid-19 fazem uso de ideias do "aceleracionismo", uma teoria fascista que incentiva o colapso da sociedade proposta por terroristas de direita radical como como Anders Breivik e Brenton Tarrant.

Extremistas de direita sondam negacionistas da Covid-19 e, ao mesmo tempo, atraem aqueles que acreditam que o vírus é real

Histórias de desinformação sobre muçulmanos furando a quarentena durante o Eid também racializaram essas teorias, permitindo que extremistas se alimentassem de islamofobia.

Este tipo de propaganda teve tal efeito que até inspirou conspirações para usar a Covid-19 contra minorias em uma onda de ataques islamofóbico/anti-semitas – como o Movimento Nacional Socialista Britânico encorajando seus apoiadores a "visitarem sua mesquita ou sinagoga local" se infectados com o vírus.

O extremismo da direita radical já estava aumentando antes da pandemia, mas sua cooptação do ceticismo e das conspirações sobre a Covid-19 provavelmente exacerbará essa ameaça cada vez maior.

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