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Por que a Costa Rica elegeu o polêmico Rodrigo Chaves?

As acusações de assédio sexual não foram suficientes para impedir os costarriquenhos de eleger o economista conservador

democracia Abierta Manuella Libardi
8 Abril 2022, 12.00
O ex-funcionário do Banco Mundial pediu demissão após ser sancionado por conduta inadequada
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Mayela Lopez/REUTERS/Alamy Stock Photo

Em meio a uma crise econômica que assola a nação centro-americana mais próspera, os costarriquenhos elegeram Rodrigo Chaves, um controverso economista conservador e ex-funcionário do Banco Mundial, como seu presidente no último domingo, 3 de abril, derrotando o candidato de centro-esquerda e ex-presidente José María Figueres.

O inexperiente Chaves chega ao poder com a promessa de reformar o sistema e recuperar a economia. Como muitos dos políticos do cenário mundial, ele se apresenta a seus partidários como um candidato anti-establishment que visa reduzir os privilégios da elite política e baixar o custo de vida de seus compatriotas, mesmo que isso exija governar por meio de referendos para driblar um Congresso com o qual não será fácil negociar.

A eleição foi marcada pela alta abstenção, ilustrando o descontentamento generalizado da população com a política tradicional. Apenas 57,2% dos costarriquenhos aptos a votar foram às urnas, uma das menores taxas de participação eleitoral nas últimas décadas.

Figura controversa

Chaves trabalhou no Banco Mundial por quase três décadas, atuando como diretor da Indonésia entre 2013 e 2019, quando deixou o posto para assumir o cargo de ministro das Finanças do presidente cessante Carlos Alvarado. Embora Chaves tenha alegado ter renunciado ao alto cargo por motivos patrióticos de servir seu país, sua real motivação foi questionada quando alegações de assédio sexual contra ele vieram à tona em agosto de 2021.

Chaves negou as acusações, argumentando que conduta inadequada e assédio sexual são coisas diferentes

As acusações foram apresentadas ao Banco Mundial por duas funcionárias subordinadas a Chaves, que afirmaram ter sofrido assédio desde que começaram a trabalhar com ele em 2009 e 2011. Após a conclusão de uma investigação interna, o Banco Mundial sancionou Chaves, em outubro de 2019, por "insinuações sexuais" e por um "padrão de comportamento inadequado indesejado".

O órgão determinou que Chaves seria transferido para um cargo inferior sem possibilidade de promoção ou aumento salarial por três anos. No entanto, Chaves renunciou ao cargo dias depois para começar carreira política em Costa Rica.

Chaves negou as acusações, argumentando que conduta inadequada e assédio sexual são coisas diferentes. “As duas instâncias administrativas do Banco Mundial que estudaram o caso confirmaram que não houve assédio sexual, mas impuseram uma sanção por comportamento inadequado, que não é assédio sexual”, disse em 2021.

Crise econômica na Costa Rica

As acusações contra Chaves não foram suficientes para evitar que mais da metade do eleitorado costarriquenho o levasse ao poder. Com um discurso agressivo de recuperação econômica, Chaves apostou em suas credenciais como economista durante a campanha eleitoral, que se deu sob uma crise aguda no país. O país, normalmente estável social e economicamente, se viu afetado pelo golpe da pandemia na indústria do turismo – a mais importante do país. Como resultado, a Costa Rica teve uma das piores quedas nas taxas de emprego da região entre 2019 e 2020, chegando a uma taxa de desemprego de 14%. Atualmente, mais de 26% das famílias que vivem na pobreza, o índice mais alto desde 1992.

Como solução para a crise econômica, Chaves prometeu implementar medidas de austeridade e investir na criação massiva de emprego

Diante da situação, os costarriquenhos se tornaram ainda mais preocupados com sua dívida externa, que dobrou desde 2016 e já representa mais de 70% de seu PIB. Como solução, Chaves prometeu implementar medidas de austeridade e investir na criação massiva de emprego.

Insatisfação com a política tradicional

Além da situação econômica da Costa Rica, a vitória do polêmico e inexperiente economista também ilustra a desilusão dos costarriquenhos com a política tradicional. Chaves derrotou o filho do histórico presidente José Figueres Ferrer e candidato do Partido da Libertação Nacional (PLN), partido que domina o cenário político da Costa Rica desde meados do século 20, uma mensagem clara do eleitorado sobre sua insatisfação com o establishment.

O descontentamento com o PLN não é novo. Apesar de ocupar quase um terço do Congresso, o partido dominante vem perdendo eleições importantes desde 2014. “Nas últimas quatro eleições, o tema da mudança esteve muito presente. Não é uma questão nova e a Libertação Nacional não conseguiu reconhecê-la em sua liderança”, diz o cientista político Jesús Guzmán, da Universidade da Costa Rica.

Para enfrentar o tradicionalismo de Figueres, Chaves adotou uma posição já bastante conhecida durante as campanhas eleitorais nas Américas. O presidente eleito atacou a “imprensa canalha”, fez referências machistas e manteve postura constante de confronto, estratégias não muito diferentes daquelas que ajudaram a levar Donald Trump e Jair Bolsonaro ao poder e que lhe renderam o título de "franco" e "do povo".

A decepção dos costarriquenhos já havia ficado clara no primeiro turno de fevereiro, quando 40% dos eleitores optaram por não ir às urnas para votar em um dos 25 candidatos da corrida presidencial. No segundo turno, a abstenção subiu para 43%. Diante dessa realidade, Chaves enfrentará não só a grave crise econômica e social do país, mas também o novo grande ator político da Costa Rica: a abstenção eleitoral gerada pela desconfiança do povo em seu sistema político.

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