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Tragédia mineira e meio-ambiente em Itabira: história de uma traição Brasileira

Enquanto a política ambiental passar pelo filtro da corrupção e da rendição de contas eleitoral, as grandes empresas seguirão com a sua extração, tao rentável como perigosa, com toda a impunidade. Español. English

Daniel Cerqueira
9 December 2015
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Trem da companhia Vale S.A. sendo carregado com minério de ferro na Mina Cauê, em Itabira. Pedro Rezende/Wikimdia Commons. Some rights reserved.

Itabira é seguramente a cidade mais mineira do brasil e, provavelmente, umas das cidades mais mineiras do mundo. A poucos quilômetros de distância de dita cidade, encontram-se cidades coloniais em cuja arquitetura barroca se preserva o esplendor da mineração do ouro e do diamante dos séculos XVIII e XIX. A mineração, mais que qualquer outra profissão, influenciou a história e a cultura do estado de Minas Gerais, pelo que aqueles que nascem neste lugar do Brasil são conhecidos como mineiros/as.

Em 1902, Itabira reforçou as suas raízes mineiras ao ver nascer um dos poetas mais consagrados da língua portuguesa. A obra de Carlos Drummond de Andrade está impregnada dum espirito mineiro que o autor atribui à sua infância em Itabira. No poema, Confidência do Itabirano, Drummond revela ter levado uma pedra de ferro como recordação da sua cidade natal, quando foi viver para Belo Horizonte primeiro, e para o Rio de Janeiro depois.

Em 1942, Itabira inaugurou a segunda onda extrativa Brasileira, liderada pela empresa Vale do Rio Doce. Em poucas décadas, esta empresa converter-se-ia na maior exportadora de ferro do mundo, transportando pedaços de montanhas de Minas Gerais pelo vale do Rio Doce até ao porto de Tubarão. A transformação da paisagem de Itabira foi descrita por Drummond, quando soube que a casa dos seus pais tinha sido inundada por uma represa da Vale do Rio Doce.

O maior trem do mundo

puxado por cinco locomotivas a óleo diesel

engatadas geminadas desembestadas

leva meu tempo, minha infância, minha vida

triturada em 163 vagões de minério e destruição.

O maior trem do mundo

transporta a coisa mínima do mundo,

meu coração Itabirano.

Com o passar do tempo, Vale do Rio Doce expandiu-se a outros 12 estados do Brasil, a novos continente e bolsas de valores de cinco países. Em 2007, prescindiu do apelido “Rio Doce”, passando a chamar-se Vale S.A, e desde então consolidou-se como uma das maiores multinacionais do planeta.

No dia 5 de novembro de 2015 o rio que conviveu como os primeiros trens do Vale foi vítima de uma traição à qual Drummond dedicaria toda uma antologia poética se estivesse vivo. Duas represas de uma mina de ferro de Samarco S.A., um consórcio formado por Vale e BhP Billiton, romperam-se e deixaram um rasto de destruição sem precedentes. Dezenas de pessoas morreram e o povoado de Bento Rodrigues foi sepultado sob toneladas de lodo e restos minerais. O lodo alcançou finalmente o Rio Doce, um dos principais corredores hídrico e fonte de captação de agua potável do sudeste brasileiro.

Desde já há alguns dias a sociedade brasileira tem vindo a refletir sobre os riscos acetáveis da mineração a grande escala. O presidente da câmara de Mariana, cidade onde se encontram as represas caídas, susteve que a desativação de Samarco causaria a falência de várias cidades do Interior de Minas Gerais. Entretanto, ás declarações de Dilma Rousseff, atribuindo a responsabilidade exclusivamente ao consórcio Samarco, seguiram-se a aplicação de multas ambientais irrisórias e um frugal acordo compensatório preliminar entre a Samarco e o Ministério Público.

O que aconteceu no dia 5 de novembro evidencia uma sucessão de imperícias e imprudências tanto por parte da empresa como por parte das autoridades estatais. Contrariamente ao dito pela presidenta Dilma Rousseff, o Estado tem evidentes responsabilidades nesta e nas rupturas de cinco represas mineiras nos últimos 14 anos no Brasil. A Samarco operava sem plano de evacuação e, no âmbito federal, o Departamento Nacional de Produção Mineira fiscalizou, em 2014, tão só 141 das 602 represas do pais.

O ponto crucial do risco ambiental no Brasil parece radicar numa relação turva entre os interesses públicos da população e os interesses privados das grandes empresas do sector mineiro-energético e da construção civil. Esta realidade foi parcialmente revelada com o escândalo dos contratos da Petrobrás e de outras empresas públicas, mas nada parecer indicar que a cooptação corporativa vá mudar. Na realidade, vários deputados das comissões parlamentarias federais e do estado de Minas Gerais, criadas para investigar as causas do acidente de Samarco, receberam fundos da Vale para financiar as suas campanhas eleitorais.

Os grêmios mineiros realizaram doações às campanhas de 17 dos 37 membros da Comissão da Câmara dos Deputados que avaluam o texto do novo Código Mineiro de Brasil. Finalmente, a Vale e outras grandes empresas extrativas e de construção civil efetuaram doações milionárias às campanhas do atual Governador de Minas Gerias, Fernando Pimentel, e de Dilma Rousseff, madrinha política da planta hidroelétrica de Belo Monte e outras obras faraónicas, cuja viabilidade económica, ambiental e social foi bastante questionada.

Enquanto a política ambiental passar pelo filtro da corrupção e da rendição de contas eleitoral no Brasil, bens naturais como o Rio Doce serão prescindíveis, não só como nome civil de uma grande empresa mineira, mas também como fonte de vida e água potável para centenas de milhares de pessoas.

Este artigo foi publicado previamente em Asuntos del Sur.

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