democraciaAbierta: Analysis

Um guia para entender o Peru de Pedro Castillo

Seria a eleição do 'outsider' das províncias a reconciliação do país consigo mesmo ou a antecipação de novas crises políticas?

Zaraí Toledo Orozco
22 Novembro 2021, 12.00
Pedro Castillo durante a 76ª Sessão da Assembleia Geral da ONU, em 21 de setembro de 2021, em Nova York, nos EUA
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Spencer Platt/UPI/Alamy Stock Photo

Um líder sindical de Chota, uma das províncias mais pobres do Peru, conquistou a presidência sobre a três vezes candidata, ex-congressista e herdeira do partido de direita mais rico e importante, Keiko Fujimori. Após a crise sanitária causada pela pandemia de Covid-19 e uma longa crise política que deixou três presidentes em quatro anos, o Peru foi dividido em duas partes quase iguais. Uma das partes, que votou em Fujimori, predominantemente de Lima, urbana e costeira, ficou em pânico depois de ouvir durante meses que o comunismo lhes iria tirar tudo. A outra, formada por eleitores mais pobres de áreas rurais, andinas e amazônicas, escolheu Pedro Castillo para iniciar o bicentenário da independência do Peru, um presidente de esquerda, professor, ligado ao movimento evangélico e completamente alheio à política de Lima, do qual muito se fala, mas quase nada se sabe.

Nenhum dos candidatos representava os sentimentos da maioria. Ambos passaram para o segundo turno com votos inferiores a 20%, o que só pode ser explicado pelo alto grau de fragmentação política. De um lado estava Fujimori, a líder que promoveu duas tentativas de vacância presidencial após a perda das últimas eleições e que, como em ocasiões anteriores, tinha como único slogan evitar tocar nas políticas neoliberais implementadas por seu pai, o hoje preso ex-presidente Alberto Fujimori. Do outro lado estava Castillo, um candidato improvisado e inconsistente, que concorreu pelo partido “Perú Libre”, cujo líder, o controverso Vladimir Cerrón, elaborou um programa político autodefinido como anti-imperialista, mariateguista, socialista e marxista-leninista. No estilo da esquerda sul-americana dos anos 2000, as únicas propostas concretas de Castillo foram a mudança constitucional e a expansão do acesso aos serviços públicos. Apesar dos sérios temores sobre ambas as candidaturas, após o primeiro turno começou uma campanha pomposa, mas incoerente, na qual a filha Fujimori se proclamou a única representante da estabilidade, da democracia e até do capitalismo.

Vários cientistas políticos acreditam que esta eleição marca o fim do consenso em torno do modelo econômico peruano. Dizem que uma grande parte do eleitorado questionou as políticas de livre mercado implementadas desde os anos 90. Alguns falam de voto de protesto. Dizem que os peruanos, irritados com a ineficiência do Estado exposta na pandemia, estão à procura de mudanças radicais. Outro grupo diz que os "excluídos", sem representação política, viraram seu descontentamento para a opção mais anti-establishment. A crise não é apenas política, mas também, e acima de tudo, institucional, afirmam.

Tudo isso é real e, no entanto, nada disso é novo na política peruana. As preocupações formais dos analistas habituais não são suficientes para explicar a ampla aliança entre líderes de direita e centristas, o viés da mídia, as campanhas publicitárias de medo financiadas por empresários nas províncias e até mesmo a militância de apresentadores e influencers de Lima. Em mais de 20 anos de democracia, o maior consenso alcançado pelas elites urbanas no Peru é que nada deve mudar – nem em relação à gestão e ao papel do Estado, nem em relação à forma como a riqueza é gerada e redistribuída, nem, sobretudo, em relação a quem pode ter acesso ao poder. Junto com o pânico dos cidadãos sobre uma mudança radical no modelo político ou econômico, esta eleição revelou o medo de uma classe política de que "o outro" também poderia querer ter um pedaço do bolo.

Os dois Peru

Durante os últimos 20 anos, o país pode ser lido de duas maneiras. No Peru há alternância no poder – o milagre peruano! É uma das economias que mais cresce, com estabilidade financeira e uma grande capacidade de atrair investimentos estrangeiros. É um país onde o emprego urbano tem aumentado e a pobreza tem diminuído consistentemente. Ao mesmo tempo, o Peru é um país onde a desigualdade está aumentando, com uma maioria que trabalha no setor informal, ou no setor formal, mas sem direitos trabalhistas, com serviços básicos precários ou inexistentes em várias regiões, e tremendamente racista contra sua população andina e amazônica.

A crise não é apenas política, mas também, e acima de tudo, institucional

O Peru não se lê pela sua filiação partidária, mas por localização geográfica. Quanto mais longe está do "milagre peruano", menos se acredita que ele seja real. Consistentemente, as áreas rurais, indígenas ou camponesas mais pobres, que dependem mais da auto-organização do que do Estado para sua sobrevivência, votam nas eleições presidenciais por opções políticas que prometem mais Estado, oportunidades e exigências socioculturais. Por sua vez, as áreas costeiras, desérticas e urbanas tendem a votar em mais opções de direita, quase sempre alinhados com os distritos mais ricos de Lima. Estes dois grupos estão unidos apenas pelo conservadorismo social. No meio, uma frágil classe média sem preferências claras, jovens apolíticos e microempresários que, deixados à sua própria sorte pelo Estado, tomaram a economia local em suas próprias mãos. Resignado a pagar empresas privadas por serviços básicos de qualidade medíocre, este último grupo teme que uma crise política o faça perder tudo o que mal conseguiu.

A divisão não é um acidente. A classe política da capital foi capaz de aproveitar o crescimento macroeconômico que veio principalmente dos altos preços dos minerais para estabelecer um discurso de status quo. No Peru não houve nenhuma guinada à esquerda, como na maioria dos países vizinhos. Também não houve grandes reformas para melhorar os serviços, como no Uruguai e na Costa Rica. Muito menos houve o surgimento de movimentos sociais indígenas, estudantis ou de trabalhadores, como na Bolívia, Equador, Chile e Argentina. No Peru, os políticos afirman que para estar melhor não é preciso fazer nada. Representação, reformas e mudanças são acessórias, quando se sabe que a inércia é rentável. Mesmo os partidos de direita mais bem dotados parecem ter perdido a ambição de fazer política real. Em termos de ideologia e política pública, nada distingue um político da “Acción Popular” de um político da “Alianza por el Progreso” ou “Fuerza Popular”. Unidos por um pacto tácito de proteção mútua, é fácil para nossos políticos mudar as causas e alternar entre as partes, usando a anedota, o impasse e a reclamação ocasional ao Ministério Público como seu único meio de diferenciação.

Não é que o cidadão não esteja vivo. O Peru é o país com o maior número de conflitos socioambientais da região e também tem uma alta porcentagem de autoridades subnacionais revogadas por corrupção1. Entretanto, sem políticos com ambições de representação e uma estrutura de mídia centralista, é difícil para os peruanos nas áreas urbanas ou costeiras saber o que seus compatriotas do sul ou do leste estão exigindo, quanto mais construir coalizões nacionais. Eles não ouvem falar das longas viagens das autoridades municipais rurais aos ministérios em Lima para conseguir mais professores para suas escolas ou simplesmente acesso à água. Também não sabem das reclamações dos cidadãos sobre obras de preço exagerado ou apropriação indevida de orçamentos. Um peruano urbano nada sabe até que a televisão mostre uma greve regional, um bloqueio de estradas ou um grupo de "radicais" retratados como ameaças à estabilidade nacional. O Peru tem crescido em reservas econômicas e poder de consumo, mas falta empatia. Ainda não pode questionar a raiz de seus problemas porque tem se assustado ao ser-lhe dito que o que este "outro peruano" quer é tirar-lhe tudo o que conseguiu.

A imprensa, um espelho do país?

Com um país dividido, as eleições se tornam o única momento em que todos têm o mesmo valor; mas a democracia pode ser exercida em um país que não conhece a si mesmo? O imaginário da nação descrita por Benedict Anderson é representado principalmente pelo que nós, cidadãos de hoje, vemos nos meios de comunicação de massa. O problema é que, no Peru, a imprensa optou por ser um jogador político e não um narrador da realidade. Desde o primeiro turno, em 11 de abril deste ano, a mídia tem dado uma cobertura tendenciosa das preferências eleitorais, sempre dando mais espaço para as nove versões da direita que participaram da corrida. De um total de 603 entrevistas durante a campanha, Alberto Beingolea, do Partido Popular Cristiano (conservador), que não é "popular" há décadas, foi entrevistado 121 vezes, enquanto Pedro Castillo foi entrevistado apenas 17 vezes2. O primeiro não alcançou 2% dos votos e o segundo ocupa agora a cadeira de Francisco Pizarro no Palácio do Governo.

Um peruano urbano nada sabe das lutas rurais até que a televisão mostre uma greve, um bloqueio de estradas ou 'radicais' que ameaçam a estabilidade

Tudo foi abaixo durante a votação. Se já era uma campanha rica em medos e pobre em propostas, a mídia a empobreceu ainda mais ao trocar o jornalismo por proselitismo. Durante semanas, houve numerosas primeiras páginas nos jornais nacionais contra Castillo e nenhuma contra seu oponente. Nas províncias, a notícia anunciava a chegada de uma espécie de mistura de comunismo e madurismo encarnado em cholos (pessoas de origem indígena) que, encorajados, corriam para invadir as casas dos "cidadãos de bem". Na televisão, as leis da mídia que regem a neutralidade e a imparcialidade eram constantemente desafiadas. Os apresentadores dos programas juvenis mais assistidos exibiam a bandeira peruana e repetiam os slogans da campanha de Fujimori enquanto agitavam seus corpos loiros e musculosos segurando as garrafas de suco que deveriam promover no próximo bloco.

Quase todos os veículos de mídia emitiram comunicados explicando que os proprietários tinham o direito de estabelecer uma linha editorial. Em retrospectiva, as mensagens pareciam ameaças. Depois que tanto os pesquisadores quanto a contagem da autoridade nacional indicaram que Castillo havia ganho, a mídia começou uma campanha de negação e desinformação. O velho esporte do terruqueo – acusações de terrorismo para desqualificar adversários políticos – era o habitual contra aqueles que reconheciam os resultados das eleições. Todos os holofotes estavam voltados a ex-militares, líderes de extrema-direita e até mesmo hispanistas que repetiam em coro que, se Castillo ganhasse, eles pegariam em armas para "defender a democracia e a paz". Diversos políticos acharam mais fácil argumentar na televisão que a Organização dos Estados Americanos (OEA) e Joe Biden haviam sido cúmplices de uma suposta fraude do que reconhecer que o candidato de Chota havia vencido nas urnas. Mesmo os jornalistas que questionaram esta versão foram forçados a deixar seus postos3.

Toda essa reação adiou a definição dos resultados finais e, muito pior, ofuscou o ideal de que o poder na América Latina se conquista através apenas do voto. Se as chances de governabilidade dos presidentes peruanos já foram prejudicadas pelo pedido de vacância presidencial como uma ameaça diária, a deslegitimação dos resultados eleitorais abre uma segunda caixa de Pandora na região, onde os perdedores são habilitados por outros poderes a não aceitarem sua derrota.

Uma classe política que não representa mais ninguém, lado a lado com uma parte da elite de Lima com ares coloniais que usa os medos legítimos de um país altamente incomunicável e dividido para dizer mais uma vez que o outro, aquele que vota de forma diferente, é o inimigo. Democracia, enquanto me convenha: este parece ser o slogan no Peru bicentenário.

A esquerda

E mesmo assim Castillo tornou-se presidente. Ele não apenas venceu os clones de direita, mas também o modelo de esquerda que estava em vigor desde os anos 2000. Uma esquerda que, instada a reconstruir-se e afastar-se de um passado ligado a grupos terroristas, voltou à arena pública sob a bandeira do compromisso democrático e da inclusão, mas que, ao obter acesso a posições de poder, não buscou mudanças profundas. A chamada esquerda "caviar", uma esquerda de Lima com alto nível de escolaridade, fez mais esforços para agradar os ricos do que para ampliar sua base social. Eleição após eleição, sua líder mais importante, Verónika Mendoza, buscou agradar a imprensa e a elite de Lima, moderando suas posições. Ela esqueceu o fato de que para a maioria das regiões do Peru, continuidade significa exclusão. Mendoza acabou sem apoio popular e sem o apoio das elites, que nunca haviam considerado votar nela. Esse vácuo político foi preenchido por dois personagens do altiplano peruano: Castillo, um outsider que encontrou a oportunidade de participar da política através do “Perú Libre”, o partido do talvez último homem do país que acredita na militância, o médico de formação cubana Vladimir Cerrón. Embora seu sonho sempre tenha sido liderar a batalha contra os setores de direita e progressistas de Lima a partir de uma identidade "provinciana", Cerrón teve que ceder seu lugar a Castillo quando foi desqualificado por uma condenação por corrupção na região de Junín, da qual foi governador. “Perú Libre” aspirava apenas ganhar algumas cadeiras, mas no país dos outsiders, muitos viram no homem de chapéu um homem como eles, capaz de entender a pobreza e a exclusão. No segundo turno, para muitos bastou que seu sobrenome não fosse Fujimori. A imprensa repetiu ad nauseam que Castillo é o fantoche de Cerrón, mas está ficando cada vez mais claro que eles têm objetivos diferentes. Castillo está interessado em se tornar um político. Cerrón, por outro lado, procura desenvolver uma estrutura política que transformará o país.

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As eleições presidenciais mostram que a região rejeita cada vez mais a política tradicional, optando por candidatos marginais ao sistema

Castillo e Cerrón irromperam no cenário peruano para balançar o pêndulo da discussão política do espectro da direita e do status quo para o da esquerda. Sua mera presença força todos os políticos a sair de suas zonas de conforto e discutir que tipo de Estado, democracia e política econômica eles querem defender. Isso leva os intelectuais, que até agora lamentam a fragilidade dos partidos da capital, a pensar em como entender as organizações políticas nas províncias. Sem fazer concessões aos setores mais ricos e sem fazer pactos com os políticos tradicionais, Castillo e Cerrón também asseguraram que as elites que costumavam criticar Verónika Mendoza estão agora implorando para que sua equipe técnica participe do governo de Castillo. A mudança é tão abrupta que quase nos perguntamos: o que costumava ser discutido na política peruana?

O abalo da classe política de Lima, no entanto, não é suficiente para tornar Castillo e Cerrón conscientes de seu papel e dever para com o país. Nem parecem ter as ferramentas necessárias para fazer uma mudança justa. A esquerda paga o preço por sua completa ausência da política. Sem uma renovação dos corpos e sem militância, é incapaz de passar do desejável para o possível. Aqui não há, como na Bolívia, um Luis Arce que possa traduzir sonhos revolucionários em uma política fiscal responsável com prioridades claras. Os últimos líderes esquerdistas no Peru foram colocados contra a parede para não cumprirem suas promessas ou se resignaram a trabalhar com tecnocratas sem espírito político, dispostos a trabalhar com qualquer governo e, portanto, contribuíram para que nada mudasse. Desde os anos 2000, a vida política da esquerda está sujeita à sua promessa de não governar com políticas de esquerda. O problema é que, tendo ganho por uma margem mínima e com o país polarizado, Castillo tem que agir rápida e efetivamente.

Ao mesmo tempo, desde antes da faixa presidencial que lhe foi imposta, Castillo tem uma guilhotina com seu nome estampado. Os fantasmas de Pedro Pablo Kuczynski e Martín Vizcarra que assombram os corredores do Palácio do Governo lembram ao novo presidente que, sem maiorias, o Congresso não lhe dará descanso. Ambos os ex-presidentes elegeram premiers e gabinetes conciliatórios do centro e até mesmo cederam ministérios à direita em troca de sua sobrevivência. Ambos foram destituídos. Com todos esses perigos, a nova esquerda parece perdida diante do desafio de definir sua estratégia para garantir a governabilidade – não está claro se deve optar pela lealdade política ou pela eficiência. O gabinete, com suas duas cordas, reflete muito bem como este dilema continua sem solução. Por um lado, há uma facção formada por "tropas de choque", com figuras radicais de esquerda como o primeiro-ministro Guido Bellido, um apologista do grupo terrorista Sendero Luminoso; nostálgicos da Revolução Cubana, como o ministro das Relações Exteriores Héctor Béjar (que teve que renunciar por declarações sobre a origem do terrorismo no país); e apoiadores do “Perú Libre” sem experiência em suas áreas, mas que já começaram a distribuir cargos. O outro grupo tem técnicos e profissionais como o ministro da Economia Pedro Francke, o ministro da Educação Juan Cadillo e as pastas da Agricultura, Mulher e Justiça, que têm uma dupla tarefa: gerar melhorias imediatas para acalmar o pânico e salvar a imagem do primeiro. Embora obcecados em ser diferentes, Castillo e Cerrón estão prestes a imitar seus antecessores: eles procuram sobreviver em vez de governar de fato. Desde que os conflitos entre os poderes executivo e legislativo começaram, a política se tornou uma competição para ver quem consegue chegar ao final de seu mandato com vida, custe o que custar.

O futuro

Castillo está sendo solicitado a nomear pessoas menos radicais, com credenciais éticas e mais bem preparadas. O pedido, que mais parece um ultimato porque vem com a ameaça de vacância na manga, vem de um púlpito tremendo: partidos e políticos que trouxeram ao Congresso pastores evangélicos que pedem o apedrejamento de mulheres lésbicas; vice-ministros hoje presos por desvio de dinheiro; e jovens ministros cujo único mérito é ser o melhor amigo do filho do primeiro-ministro. Não está claro se é a insolvência profissional ou o fato de que eles não foram convidados para a festa que os incomoda.

Desde os anos 2000, a vida política da esquerda peruana está sujeita à sua promessa de não governar com políticas de esquerda

Outros setores mais centristas também estão pedindo ao novo presidente para trair seu partido e passar por um processo de ollantização; em outras palavras, seguir o caminho do ex-presidente, Ollanta Humala, e renunciar a tudo o que disse que faria e deixar as coisas como estão. Neste momento, porém, quando uma campanha de especulação já foi ativada e existem reais receios sobre o futuro da estabilidade econômica, esta não é uma opção. Um governo estático está condenado a sofrer perda de credibilidade e fuga de capitais. Pior ainda, manter a inércia é o mesmo que criar um terreno fértil para o surgimento de líderes mais radicais.

Os peruanos sabem que, com pouca ou nenhuma representação partidária, o país criou um sistema de relações diretas entre o executivo e os cidadãos, com estes últimos exercendo controles e equilíbrios para apoiar os presidentes que percebem como reformista. Castillo tem o dever de alterar seus objetivos políticos não para agradar a uma classe política que incomode seu governo independentemente de suas decisões, mas para ser coerente com o que os peruanos têm exigido e, portanto, para se tornar seu representante – ou seja, expandir a presença do Estado em todo o país e construir uma institucionalidade que dê maior presença aos interesses dos setores que foram excluídos até agora. Pelo contrário, trabalhar com as mesmas pessoas acostumadas a negócios obscuros ou anti-direitos ou a cair no nepotismo lhe tirará o apoio popular e o deixará sozinho contra uma oposição já salivada pela ideia de que o caos no país devolverá suas cotas de poder. Castillo não é Evo Morales ou Luiz Inácio Lula da Silva – não vem fortalecido por movimentos sociais ou apoiado pelos trabalhadores organizados. Muito menos ele tem a experiência política que ambos possuíam quando chegaram ao poder. No entanto, as origens e a pele de Castillo o colocam em uma posição única de mostrar para uma sociedade que projeta prédios com elevadores separados para que os cholos não dividam espaço com seus patrões que ainda pode perseguir o sonho de ser iguais. Em termos concretos, o presidente tem capital social que deve ser traduzido na criação de pontes de comunicação com um setor marginalizado que permita ao Estado ouvir as demandas, prevenir conflitos e implementar soluções que venham daqueles afetados pela política. Ele tem uma oportunidade de trazer essas pessoas para fazer parte das regras do Estado.

Aqueles que só confiam neste primeiro ponto, no entanto, acabam afundando no personalismo e minando as regras do Estado. É por isso que o novo governo também tem um mandato para assegurar que a política sirva para legitimar o papel das instituições. Isso também significa deixar claro que estas instituições podem estar a serviço de todos: elas podem fornecer segurança jurídica para médios e microempresários, promover a saúde de qualidade, supervisionar e sancionar. Embora isso possa deixar algumas pessoas desconfortáveis, promover a legitimidade das instituições significa deixar claro que nem a elite, nem a imprensa, e muito menos o líder de um partido, estão acima da lei.

*Traduzido por Lourenço Melo


  1. Yanina Welp: "Recall Referendums in Peruvian Municipalities: A Political Weapon for Bad Losers or an Instrument of Accountability?" in Democratization vol. 23 No 7, 2016.
  2. Grupo de Investigación de Partidos y Elecciones (gipe): "Mesa": Entrevistas a candidatos presidenciais em televisão: 1 de enero - 11 de abril", Pontificia Universidad Católica del Perú, Lima, 2021.
  3. O programa político dominical mais visto na televisão, Cuarto Poder, enfrentou a demissão em massa de sua equipe jornalística depois que seus membros se opuseram ao pedido de cobertura pró-Fujimori e anti-Castillo por parte da direção. "Mordaza en Cuarto Poder: Periodistas renuncian por desacuerdo" em El Perfil, 8/6/2021.

Este artigo foi originalmente publicado em espanhol pelo Nueva Sociedad. Leia o original aqui.

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