Depois de um resultado vitorioso, porém frustrante, para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no primeiro turno das eleições presidenciais brasileiras, os primeiros movimentos apontam para o desenho de algo desejado há bastante tempo no país e poucas vezes sedimentada: uma frente ampla, de natureza diversa e multipartidária, capaz de unir forças originalmente antagônicas no Brasil em torno de um projeto comum. É o efeito do que está em curso hoje por aqui: evitar que um segundo mandato de Jair Bolsonaro conduza o país ao aprofundamento do autoritarismo e dos retrocessos em áreas-chave, e se converta na formação definitiva de uma autocracia, com avanço ainda maior sobre os limites impostos pela democracia e pela Constituição e mergulho das instituições democráticas nacionais na falência e no esgotamento. Nos últimos quatro anos assistimos a um ensaio dessa autocracia – e já foi trágico de ver, sentir e sofrer.
Os sinais de resistência, porém, parecem evidentes, e vão além das preferências ou críticas ao ex-presidente Lula. Se ele já tinha o apoio de Marina Silva (ex-senadora, ex-ministra no primeiro mandato de Lula e ex-adversária de Dilma Rousseff na dura eleição que levou a primeira mulher ao poder no país), Lula ganhou a defesa explícita do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Se já tinha o apoio de nomes moderados e luminares da Justiça brasileira – como os ex-ministros do Supremo Tribunal Federal Celso de Mello, Carlos Ayres Britto, Carlos Velloso, Joaquim Barbosa e Nelson Jobim – Lula ganhou a defesa explícita da candidatura da senadora Simone Tebet (MDB), terceira colocada com cerca de 5 milhões de votos, e também de empresários que, no primeiro turno, a apoiavam. Se já tinha o apoio de representantes respeitados da sociedade civil, entre empresários, intelectuais, artistas, organizações do campo dos direitos humanos, da educação e do meio ambiente, Lula ganhou a defesa explícita de economistas que, anos atrás, gravitavam em torno dos governos do PSDB, partido de Fernando Henrique Cardoso e, até um passado recente, o único que polarizava com o PT.
Não é pouca coisa.