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Nova caravana hondurenha expõe fracasso diante da crise migratória

América Central, México e Estados Unidos não podem mais ignorar os problemas que levam milhares de centro-americanos a formar caravanas na tentativa de migrar.

democracia Abierta
20 Jan 2021 - 4:25pm
Forças de segurança guatemaltecas confrontam migrantes que cruzam o país a caminho dos Estados Unidos em Vado Hondo, Chiquimula, Guatemala, 18 de janeiro de 2021
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Xinhua News Agency/PA Images

A violência vivida por milhares de migrantes na Guatemala nos últimos dias traz à tona mais uma vez o que os países da América Central, México e Estados Unidos vêm ignorando há anos: as caravanas são uma nova realidade da crise migratória do século 21 e, mais cedo ou mais tarde, terão que enfrentar o problema.

Desde domingo (17), as forças de segurança guatemaltecas vêm redobrando seus esforços para bloquear uma caravana de migrantes de Honduras, com cerca de 9 mil pessoas, que saíram em 13 de janeiro em direção aos Estados Unidos. Em resposta à chegada da caravana, o México também reforçou sua fronteira com a Guatemala.

A violência resultante do choque entre agentes estatais e migrantes fez manchetes em todo continente, forçando-nos a olhar a crise nos olhos.

O recente episódio também expõe a fragilidade dos acordos entre Honduras, Guatemala e México para controlar o trânsito de migrantes a caminho dos Estados Unidos, feitos sob considerável pressão do ex-presidente Donald Trump.

O que são caravanas de migrantes?

Embora a migração centro-americana para os Estados Unidos remonte aos anos 70, quando guerras civis e revoluções eclodiram em vários países da região, seu fluxo quase dobrou nos últimos 15 anos, aumentando de 2,6 milhões para 4,2 milhões de pessoas.

A tendência migratória no Triângulo Norte tem sido impulsionada por ondas de forte violência e insegurança associadas a redes de crime organizado, gangues e tráfico de drogas na região. Desde 2009, novas ondas de migração também surgiram devido às recessões econômicas resultantes da crise financeira global de 2008, que também aumentaram a violência na América Central.

As ondas migratórias da América Central devem se intensificar este ano, como consequência da devastação causada por dois furacões consecutivos no quarto trimestre de 2020, além da pandemia de Covid-19.

A partir de 2018, grupos de pessoas começaram a se reunir em caravanas para atravessar a América Central e o México a caminho dos Estados Unidos. Esta forma de viajar oferece segurança e visibilidade aos migrantes na rota perigosa, onde muitos já desapareceram ou foram sequestrados. As caravanas também são uma forma de evitar o alto preço da contratação de coiotes para levar os migrante à fronteira dos Estados Unidos.

Resposta da Guatemala e do México

"O governo da Guatemala lamenta a transgressão da soberania nacional", disse o presidente Alejandro Giammattei em um comunicado sobre a recente caravana e pediu às autoridades hondurenhas que contivessem a saída em massa de seus habitantes.

Como esperado, a administração Trump adotou uma abordagem de dissuasão da migração, em vez de abordar as causas do fenômeno crescente

O governo mexicano se posicionou de forma similar ao governo guatemalteco, elogiando a iniciativa do país de dissolver a caravana. "O governo mexicano reconhece o excelente trabalho do governo guatemalteco, que agiu de forma firme e responsável no cuidado integral dos contingentes de migrantes que violaram sua soberania", disse o ministro das Relações Exteriores do México em um comunicado.

Na América Central, os candidatos populistas aproveitaram a onda anti-establishment popularizada por Trump para chegar ao poder, o que deu aos Estados Unidos forte influência na região para promover sua agenda anti-migração.

Pressão e ameaças dos Estados Unidos

Durante seu mandato, Trump acirrou as políticas de imigração do país para abordar o que ele chamou de um sistema de imigração fora de controle, fortemente simbolizado pelas caravanas de migrantes que chegam à fronteira com os México, o que ele disse constituir uma ameaça para a segurança dos Estados Unidos.

Como esperado, a administração Trump adotou uma abordagem de dissuasão da migração, em vez de abordar as causas do fenômeno crescente. Durante sua administração, o ex-presidente exerceu considerável pressão sobre os governos da América Central e do México para deter as mobilizações em massa de migrantes antes que chegassem à fronteira, congelando a ajuda financeira e ameaçando impor tarifas.

Seus esforços incluíram ameaçar o México a assinar um acordo de migração e forçar os países da América Central a se comprometerem com os chamados Acordos de Cooperação para Asilo (ACA), que exigem que certos requerentes de asilo solicitem proteção nesses países com antecedência em vez de na chegada aos Estados Unidos.

O governo dos Estados Unidos também insistiu na deportação de migrantes dos centros de detenção de Policia de Imigração e Alfândega (ICE) em meio à pandemia de Covid-19, causando um grande impacto em países mal equipados para lidar com uma crise de saúde pública em larga escala.

A crise migratória destaca os fracassos das políticas de austeridade implementadas após a crise financeira causada pelo ultra-neoliberalismo

Os Estados Unidos também continuaram a implementar, em plena pandemia, o plano "Remain in Mexico" (Fique no México), promulgado pelo Departamento de Segurança Interna (DHS) em janeiro de 2019, que permite ao país retornar requerentes de asilo ao México para aguardar sua audiência, aumentando as chances dessas comunidades vulneráveis se tornarem vítimas de ainda mais violência e contágio em cidades fronteiriças.

Biden: nova era para a migração?

Não é coincidência que esta caravana tenha sido organizada em janeiro de 2021, poucos dias antes da inauguração de Joe Biden. O novo presidente dos Estados Unidos prometeu reformar a política de imigração de Trump e facilitar o processo para os requerentes de asilo e outros migrantes.

Entretanto, Biden indicou que a administração entrante não tem a intenção de fazer mudanças imediatas nas políticas existentes na fronteira com o México. "A situação na fronteira não vai mudar da noite para o dia", disse um funcionário de transição do novo governo.

Biden disse que, em seu primeiro dia no cargo, planeja pedir ao Congresso uma revisão abrangente das leis de imigração, mudanças que incluiriam a possibilidade de cidadania para 11 milhões de imigrantes atualmente nos Estados Unidos ilegalmente, bem como assistência para as economias centro-americanas e planos para ajudar as pessoas que fogem da violência.

A crise migratória marcou grande parte da agenda global pós-2008, destacando os fracassos das políticas de austeridade que foram implementadas após a crise financeira causada pelo ultra-neoliberalismo. As consequências ainda são evidentes, mais de uma década depois. Os movimentos crescentes da direita radical nos últimos anos mostram que os países não estão fazendo o suficiente para enfrentar a raiz do problema: desigualdade extrema, precariedade absoluta, pobreza, desemprego e violência estrutural – problemas que só continuarão a crescer como uma bola de neve se não mudarem sua estratégia e a enfrentarem com determinação.

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