democraciaAbierta: Analysis

Acordo sobre perdas e danos da COP27 não é uma vitória

A cúpula não assumiu um compromisso claro com a descarbonização e o fim dos desastres climáticos que causam perdas e danos

Amelia Womack
16 Dezembro 2022, 12.01
Simon Stiell, secretário executivo da ONU para mudanças climáticas, discursa na cerimônia de encerramento da COP27
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Christophe Gateau/dpa/Alamy Live News

Quando o acordo final da COP27 foi publicado, as poderosas palavras do membro do Pacific Climate Worrior, Joseph Sikulu, ecoaram em minha mente.

“Hoje vestimos preto não apenas como uma representação de nossa luta para eliminar os combustíveis fósseis do texto, mas porque, de onde viemos, só usamos preto quando estamos de luto”, disse Sikulu em entrevista coletiva.

Em referência à Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC), assinada há 30 anos, Sikulu continuou: “Portanto, hoje estamos de luto por um processo que está falhando conosco, um processo que não avança e que segue falhando com nosso povo, um processo que continua a ser fardo e que não leva em conta as nossas realidades. Estamos aqui para lamentar a UNFCCC neste processo da COP porque está falhando em tudo o que somos.”

Diante donacordo final da COP27, todos deveríamos estar de luto. A COP27 pode ter se comprometido com um fundo de perdas e danos para compensar os países mais prejudicados por uma emergência climática que eles não criaram, mas também se comprometeu com um caminho de devastação. Este caminho significará perda de vidas, meios de subsistência, culturas e espécies. É um acordo que poderia varrer nações insulares e transformar terras agrícolas em deserto.

O financiamento de perdas e danos é uma vitória, mas, sem um compromisso claro com a descarbonização e a redução de emissões, é um fracasso porque não contribui para frear os desastres climáticos que causam perdas e danos. Também há muita ambiguidade sobre o fundo, que não descreve um processo de financiamento nem especifica quem pagará e quem será elegível para receber o dinheiro, muito menos define o que são “perdas e danos”. Claramente, há trabalho a ser feito.

E com os maiores emissores do mundo já deixando de pagar o Green Climate Fund (GCF) – que foi criado dentro da estrutura da UNFCCC para ajudar os países mais pobres a se adaptar e mitigar os efeitos climáticos – acreditaremos em um fundo de perdas e danos quando o virmos. Em setembro, descobriu-se que o Reino Unido sozinho havia perdido o prazo para fornecer US$ 288 milhões ao GCF e não pagou os US$ 20,6 milhões que havia prometido separadamente ao fundo de adaptação.

Recebemos avisos claros e consistentes do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas: as emissões devem atingir o pico dentro de uma janela de apenas três anos para que o aquecimento global não ultrapasse os 1,5°C que destruiriam habitats e levariam a novos desastres climáticos extremos. Isso nos dá apenas 25 meses para reduzir as emissões. A COP27 se comprometeu com isso, com líderes mundiais, incluindo o presidente Biden, prometendo manter viva a promessa do 1,5°C. Mas as palavras não têm sentido sem uma ação direcionada, o que claramente não está acontecendo.

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Membro da Pacific Climate Warriors Joseph Sikulu na COP27, em Sharm el-Sheikh

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Amelia Womack/Todos os direitos reservados

As COPs anuais começaram com a de 1995 em Berlim e, desde então, temos visto aumentos anuais regulares nas emissões de carbono (exceto por uma pequena queda durante a pandemia), bem como um aumento nos desastres relacionados ao clima. Em Glasgow no ano passado, uma mudança de última hora no documento para “reduzir gradualmente” em vez de “eliminar gradualmente” o uso de carvão levou o presidente da COP26, Alok Sharma, à beira das lágrimas. Essa importante nuance não foi revisitada no Egito, e os esforços liderados pela Índia para criar um novo compromisso de eliminar gradualmente todos os combustíveis fósseis – não apenas o carvão, o mais poluente – estenderam as negociações, mas acabaram fracassando.

Este deveria ser o COP da implementação, mas tem sido apenas mais uma de 'blá blá blá'. Essas negociações são atualmente o único mecanismo disponível para enfrentar a maior crise da história da humanidade. Precisamos repensar radicalmente como realizamos mudanças, responsabilizar os países por não cumprirem suas promessas e garantir que estamos genuinamente progredindo em direção a um futuro líquido zero. Em resumo, a COP precisa fazer a transição das palavras para a ação.

Desde Glasgow, a força da emergência climática foi sentida em todo o mundo, seja nas inundações que devastaram um terço do Paquistão, na seca em curso no Chifre da África ou na primeira vez que uma temperatura de 40°C foi registrada no Reino Unido. É claro que estamos vivendo em estado de emergência, mas quanto do mundo precisa ficar debaixo d'água até que uma ação decisiva seja tomada?

Um negociador afirmou que a Arábia Saudita parecia gostar de ser o 'vilão' porque beneficiava seus investidores em combustíveis fósseis

Na verdade, a COP parecia ter sido sequestrada por lobistas de combustíveis fósseis. Um negociador que encontrei saindo do local afirmou que a Arábia Saudita parecia gostar de ser o “vilão” nessas negociações porque beneficiava seus investidores em combustíveis fósseis. Foi um lembrete sombrio de como um país com um setor petrolífero significativo pode comprometer o progresso.

A negociadora com quem falei estava a caminho de casa. A realidade da divisão entre nações ricas e pobres ficou claro quando as negociações foram estourando o tempo previsto. Os mais pobres, ela disse, são excluídos das conclusões da cúpula se as negociações se estendem, porque não é fácil ou barato remarcar os voos para casa. Esta COP foi estendida por 40 horas, reduzindo a diversidade de negociadores de todo o mundo, bem como os delegados presentes e o escrutínio da imprensa.

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Na COP27, pode não ter havido muita ação nas salas de negociação, mas durante suas duas semanas, o local esteve repleto de ação climática. Veio dos delegados que viajaram de todo o mundo para Sharm el-Sheikh tentar fazer com que suas vozes fossem ouvidas. Da mulher do Senegal pedindo eletricidade renovável ao líder amazôniconcontando ao mundo sobre o aumento das temperaturas que sua comunidade enfrenta, a ação estava em toda parte.

O mantra dos Pacific Climate Warriors é: “Não estamos nos afogando, estamos lutando”. É uma mensagem de possibilidade diante de uma tragédia potencial. Ao iniciarmos o caminho para a COP28 em Dubai, é importante lembrar essas palavras e trabalhar juntos para lutar por uma ação mais rápida diante da emergência climática.

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