
Juca Ferreira. Thibault Camus AP Press Association Images. Todos os direitos reservados.Francesc Badia: muito obrigado por conceder esta entrevista à Democracia Aberta neste momento tão intenso para a política brasileira. Estamos a num cenário influenciado pela dinâmica e pela dialética sobre se houve, ou não, um golpe no Brasil. Neste quadro de polarização artificial e de manipulação dos movimentos populares, como analisa a situação atual no Brasil?
Jucá Ferreira: em primeiro lugar gostaria de precisar que,na minha compreensão, se trata de um golpe. Os golpes na América Latina, hoje em dia, não são protagonizados pelos militares, mas são levados a cabo através de um cerco: midiático, jurídico, policial e parlamentar, onde se desconstrói tudo o de bom, e onde se criminalizam os governos populares, os partidos de esquerda e os líderes políticos. Tal como no caso do Brasil, onde, com o apoio do judiciário e da policia federal, o golpe acabou por se consumar no Parlamento. Caracterizo-o como um golpe porque, pese a que o impeachment seja uma medida prevista na Constituição, requerem-se alguns requisitos para que o mesmo se dê: entre outros, que um crime de responsabilidade tenha sido cometido pelo presidente da república o que, neste caso, não existiu. Os golpistas mesmos já reconheceram em várias ocasiões e ao cassar o mandato da Presidenta Dilma, mantendo os seus direitos políticos, pois se a presidenta tivesse cometido crime de responsabilidade seria normal que perdesse os direitos políticos. Foi um golpe que veio se instalando, cercando e impedindo o governo de governar, até chegar ao poder. E, que agora, vai ameaçar todas as conquistas sociais e politicas da sociedade brasileira. Durante estes 13 anos não tivemos registro de ataques contra a liberdade de expressão, ninguém foi preterido ou privilegiado, enquanto que, com o novo governo, alguns artistas já estão a ser perseguidos; já estão a usar as instituições publicas para criminalizar movimentos sociais e pessoas que se manifestam contra o golpe. Produziu-se o cerco mediático mais intenso desde que a Presidenta foi reeleita, montado pelos meios do Brasil que, sob o controlo quase absoluto de poucos grupos econômicos , desconstruíram durante todo o tempo o governo, o PT e as principais personalidades do governo. Esta campanha antidemocrática vai ter um impacto significativo nas eleições municipais, sendo possível que o PT veja reduzido o numero de prefeituras e tenhamos que enfrentar uma situação de desigualdade na disputa política muito grande nestas eleições.
FB: isto é preocupante. Mas o que sim que se constata no Brasil, e não só no Brasil, é uma mudança de ciclo politico na direção da direita, sendo essencial que o comportamento de ambos, da esquerda e da direita, seja estritamente democrático para garantir a manutenção da alternância do poder, respeitando o fair-play democrático que, como sabemos, é essencial para a saúde democrática. Não parece que isto esteja a acontecer; nem que a direita esteja preparada para aceder ao poder nem que a esquerda esteja preparada para se rearmar oposição. Que opinião tem sobre isto?