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Incêndios e vazamentos de hidrocarbonetos ameaçam a Amazônia colombiana

Os fogos de janeiro quebraram o recorde da última década, um desastre que vem sendo agravado por pelo menos dois derramamentos

democracia Abierta
16 Fevereiro 2022, 12.00
Os incêndios na Amazônia colombiana são os piores dos últimos 15 anos
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Shutterstock

Rodrigo Botero, diretor da Fundação para a Conservação e Desenvolvimento Sustentável (FCDS), fez inúmeros apelos em suas redes sociais alertando sobre o excepcional número de incêndios na Amazônia colombiana.

Somente no mês de janeiro, mais de 1,2 mil alertas de incêndio nos biomas amazônicos foram registrados pela Global Forest Watch, organização que monitora incêndios em áreas florestais. Isso significa um aumento de 75% em relação ao mesmo mês do ano anterior, quando a organização registrou 280 alertas.

Os incêndios se devem a queimadas iniciadas por grileiros, máfias e grupos armados, afirma. Botero, que periodicamente faz sobrevoos para registrar o estado do ecossistema, publicou imagens em suas redes sociais que mostram grandes buracos nas camadas da floresta. O avanço das chamas já atingiu o Parque Natural Nacional Chiribiquete, o maior da Colômbia, declarado patrimônio cultural e natural da humanidade.

O Chiribiquete, além de albergar ecossistemas privilegiados como tepuis e pinturas rupestres de valor incalculável, possui centenas de estradas construídas pelas FARC antes da assinatura do Acordo de Paz entre as florestas que se estendem por mais de meio milhão de hectares. Neste paraíso natural, cerca de 2,3 mil hectares de floresta já foram queimados, de um total de 15 mil, no departamento de Guaviare, onde Rohymand Giovanny Garcés, prefeito do departamento, declarou alerta vermelho em 4 de fevereiro.

Soma-se à situação atual as vozes de organizações da sociedade civil e comunidades camponesas e indígenas que culpam também o desmatamento persistente na região, e não apenas as distorções climáticas.

A Colômbia é um país bimodal, ou seja, tem duas estações secas e duas estações chuvosas ao longo do ano. No entanto, a dinâmica dessas estações se tornou mais extrema nos últimos anos, com chuvas inusitadamente torrenciais e secas prolongadas.

Os incêndios atuais, no entanto, não estão diretamente associados à estação seca que começou em dezembro de 2021, mas às inúmeras queimadas que ocorreram durante o último trimestre do ano. Em seu último boletim de detecção de desmatamento, o Instituto de Hidrologia, Meteorologia e Estudos Ambientais (IDEAM) afirmou que a Amazônia colombiana foi a região com mais relatos de desmatamento em 2021, com 38,6%.

A situação é crítica. Desde o início do ano, houve apenas um dia de chuva na Amazônia diante de temperaturas entre 33°C e 37°C. Ambientalistas vêm chamando a atenção do governo para o impacto dessa situação nas queimadas, que muitas vezes saem do controle e causam grandes incêndios e desmatamentos.

Caminhos ilegais na floresta

Caminhos ilegais na floresta

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Rodrigo Botero/Twitter

Diante da preocupação crescente, 190 acadêmicos e especialistas em meio ambiente se reuniram para escrever uma carta na qual pedem ao presidente Iván Duque e ministro do Meio Ambiente Carlos Correa que tomem ações para conter o desmatamento.

Na carta, os especialistas explicam que, nas últimas semanas, os focos de calor se concentraram na Amazônia, afetando dez municípios dos departamentos de Caquetá, Guaviare e Meta. Por isso, pedem ao presidente que crie um roteiro que articule atores, incluindo o Exército, bombeiros, defesa civil e Aeronáutica, para conter as queimadas. Segundo os acadêmicos, estes são os piores incêndios que a Amazônia colombiana viu nos últimos 15 anos. Se não forem contidos, terão efeitos irreversíveis ​​na regulação da temperatura na região e na luta global contra a crise climática.

Duque respondeu através do Twitter, onde afirmou que ele e seu governo condenam "o ecocídio criminoso que os dissidentes das FARC estão cometendo na Amazônia". Adicionou que enviará 400 homens da Força Pública para lançar a operação Miller Perdomo para conter os incêndios. Embora as FARC foram parte do problema e alguns de seus dissidentes continuam sendo, elas são apenas um aspecto de um problema muito maior e mais complexo. Duque, no entanto, parece cego a qualquer motivo que não esteja de acordo com sua agenda política, que é continuar com a lógica da guerra enviando soldados para as áreas afetadas. Enquanto isso, a Amazônia queima.

Derramamentos para começar o ano

Os vazamentos de óleo ocorridos no início do ano também dispararam os alarmes dos especialistas ambientais. Em 17 de janeiro, a Unidade Nacional de Gestão de Riscos e Desastres (UNGRD) ativou um plano de contingência para conter um derramamento de combustível no rio Putumayo, na aldeia de El Tablero.

A UNGRD tem acompanhado a empresa Transportadores Caribe S.A. em seus esforços de limpar o ACPM (diesel) derramado durante o naufrágio de um barco no Putumayo. Embora a UNGRD tenha declarado que apenas o combustível que abastecia o barco tenha sido derramado, a Secretaria de Saúde de Putumayo declarou possível emergência ambiental em 24 de janeiro e informou às comunidades que não deviam comer nada proveniente do rio ou beber sua água devido ao derramamento.

A embarcação estava transportando mais de 12 mil galões de ACPM. Por esse motivo, a empresa terá que assumir os danos e impactos ambientais causados pelo diesel.

Também em 24 de janeiro, a Ecopetrol, a maior empresa petrolífera da Colômbia, informou que houve um ataque com explosivos contra um de seus campos de produção de petróleo, localizado a 22 km de Barrancabermeja.

De acordo com o relatório da entidade, o ataque foi contra as tubulações da empresa e afetou as tubulações para água misturada com petróleo bruto utilizada na produção de petróleo.

Estes são os piores incêndios que a Amazônia colombiana viu nos últimos 15 anos

Assim, aos incêndios que devoram a Amazônia, somam-se dois derramamentos de hidrocarbonetos que colocam em risco os ecossistemas da região e o Putumayo, um dos principais afluentes do Amazonas no país.

É fundamental que o governo estabeleça medidas para deter e mitigar as ameaças ao meio ambiente de forma eficaz e sem agendas políticas. A prioridade não deve ser manter o Exército ativo para continuar uma guerra que deveria ter acabado em 2016, mas garantir a saúde dos ecossistemas da Colômbia, o segundo país mais biodiverso do mundo.

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