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Os países mais atingidos pela crise climática na América Latina

Por sua vulnerabilidade, desigualdade e falta de ação política, a região já sofre os efeitos das mudanças climáticas

democracia Abierta
10 Novembro 2021, 12.00
San Pedro Sula, em Honduras, após o furacão Iota, em 2020
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Alamy Stock Photos

Se há algo certo sobre a crise climática na América Latina é que ela já está aqui e seus efeitos são sentidos em todos os países da região.

A Amazônia está passando por suas piores secas em 50 anos e enchentes e furacões sem precedentes na América Central tornaram-se comuns em 2020.

Em agosto de 2022, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) publicou um relatório em que aponta que a região é uma das mais afetadas pela crise climática e fenômenos meteorológicos externos.

O relatório mostra que, entre 1998 e 2020, eventos relacionados ao clima e seus impactos causaram a morte de mais de 312 mil pessoas e afetaram mais de 227 milhões de pessoas na América Latina.

Embora todos os países da região estejam sentindo os efeitos da crise climática de uma forma ou de outra, há alguns que sofreram danos significativos devido a furacões e inundações.

América Central não tem trégua

O salvador

Em maio e junho de 2020, a tempestade tropical Amanda atingiu o El Salvador, reduzindo a produção de milho e feijão em 50%. De acordo com um estudo do Programa Mundial de Alimentos, aos efeitos combinados dos furacões e da pandemia de Covid-19 fizeram com que 162 mil lares salvadorenhos sofressem insegurança alimentar.

Pessoas em baixo de uma ponte
Deslocados em El Salvador após os danos do Eta em 2020 | Shutterstock

Haiti

Em agosto deste ano, a tempestade tropical Laura devastou a ilha de Hispaniola, dividida pelo Haiti e pela República Dominicana, gerando fortes chuvas e inundações que causaram graves perdas em plantações e gado. Estima-se que os impactos na agricultura foram significativos e que as lavouras sofreram perdas entre 50 e 80%. Nesse mesmo mês, o Haiti foi novamente atingido por um terremoto que matou cerca de 2,5 mil pessoas e sofreu a chegada de Grace, outra tempestade tropical que assolou o país.

Guatemala, Honduras e Nicarágua

Os furacões Eta e Iota atingiram esses três países sem piedade em 2020. Ambos os furacões de Categoria 4 afetaram mais de 8 milhões de pessoas na América Central, especialmente na Guatemala, Honduras e Nicarágua, danificando 1 milhão de hectares de plantações e alterando os meios de subsistência agrícolas. O setor de pecuária perdeu mais de 190 mil cabeças de gado, suínos e aves, bem como ativos essenciais, como infraestrutura e equipamentos agrícolas. Essas perdas, somadas à crise causada pela pandemia e aos crescentes conflitos sociopolíticos, fizeram com que os habitantes desses países partissem em enormes caravanas para os Estados Unidos, no que pode ser considerada uma onda de refugiados do clima.

Em Honduras, 4,17 milhões de pessoas sofreram perdas monetárias com os furacões e 569.220 hectares de lavouras foram perdidos. Cerca de 745 comunidades em 155 municípios relataram danos de vários graus e os cortes nas comunicações afetaram mais de 95 mil pessoas,

Vista aérea de região alagada
Nicarágua após a passagem de Iota em 2020 | Shutterstock

Na Guatemala, Eta e Iota afetaram 1,8 milhão de pessoas, danificaram 16.448 hectares de terras cultivadas e mataram 126.812 cabeças de gado, o que agravou a insegurança alimentar do país.

Na Nicarágua, 1,8 milhão de pessoas foram atingidas, assim como 220.000 hectares de terras cultivadas e 43.667 cabeças de gado foram perdidas.

Os custos desses danos foram assumidos, em grande parte, pelo setor privado de cada país. Os setores afetados foram agricultura, habitação e comércio.

A região, em dados

De acordo com o relatório da OMM, 2020 foi um dos três anos mais quentes já registrados no México, América Central e Caribe e o segundo mais quente para a América do Sul. As temperaturas foram de 1°C, 0,8°C e 0,6°C acima da média.

Nos Andes chilenos e argentinos, as geleiras recuaram nas últimas décadas. Já o sul da Amazônia vem passando por seca intensa, considerada a mais grave dos últimos 60 anos. Da mesma forma, 2020 superou 2019 como o ano com maior atividade de incêndios na mesma região.

Além dos problemas na Amazônia, há uma seca generalizada em toda a região que teve um grande impacto nas rotas de navegação interna, na produtividade das safras e na produção de alimentos, agravando a insegurança alimentar em muitos países. A precipitação, por outro lado, diminuiu significativamente, aumentando o risco de secas extremas na região.

Ao atingir a intensidade de Categoria 4, ETA e Iota tocaram terra com força incomum nos mesmos lugares e seguiram trajetórias idênticas na Nicarágua e em Honduras, afetando seriamente seus habitantes e ecossistemas.

Os ecossistemas marinhos e litorais e as comunidades que deles dependem, especialmente os estados insulares em desenvolvimento, enfrentaram ameaças crescentes de acidificação dos oceanos, aumento do nível do mar e aumento da intensidade de tempestades tropicais.

No Brasil, o desmatamento continua avançando mais de um milhão de hectares por ano. Foram 8.712 km2 de floresta perdidos no período 2020-2021, o segundo pior número dos últimos 13 anos, enquanto as políticas extrativistas de seu governo só aumentaram a ameaça contra o pulmão do mundo.

No México, as reformas energéticas buscam priorizar os combustíveis fósseis e frear os avanços que vêm ocorrendo na implantação de energias limpas, apesar de ser o país que mais emite carbono na região.

Finalmente, as medidas de adaptação, particularmente os sistemas de alerta precoce, não estão suficientemente desenvolvidas. Para alcançar um progresso real, é necessário um apoio financeiro significativo em cada país, o que até agora é impossível devido aos impactos financeiros da pandemia de Covid-19.

Tempos difíceis pela frente

Se essa tendência continuar, toda a região sentirá os efeitos e impactos das mudanças climáticas, como ondas de calor, diminuição da produção agrícola, incêndios florestais e esgotamento dos recifes de coral.

Se os governos latino-americanos querem reduzir os riscos a que estão expostos seus países, lugares repletos de assimetrias econômicas e sociais, precisam começar a implementar políticas que ajudem a manter o aumento da temperatura global abaixo de 2°C, conforme o que foi determinado no Acordo de Paris de 2015.

Para Petteri Tallas, Secretário Geral da OMM, “A região da América Latina e do Caribe enfrenta e continuará a enfrentar graves crises socioeconômicas devido a eventos hidrometeorológicos extremos. Recentemente, isso foi agravado pelos impactos da pandemia de Covid-19. A recuperação pós-Covid-19 será um desafio. Para garantir a sua recuperação, é fundamental continuar a promover o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável nº 13, que indica a adoção de medidas urgentes de combate às alterações climáticas e seus impactos”. Diante da COP26, o mundo saberá se a região atenderá a esse apelo ou se continuará a fazer ouvidos moucos e a aprofundar a crise climática que já a assola.

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