“Um dia você se olha no espelho e vê as cicatrizes como feridas; o tempo passa e você não as vê mais”, escreveu no Facebook Alejandra Pérez, que passou por mastectomia dupla após diagnóstico de câncer. “E em um dia como hoje, você voltar a olhar para elas”, continuou. Naquela época, Pérez era conhecida como a candidata “sem seios”, como ela diz. Faltavam sete semanas para as eleições da Assembleia Constitucional do Chile, em que foi eleita sob a bandeira da saúde e através da imagem de seu peito nu estampados com slogans dos protestos de 2019, como "até que a dignidade se torne habitual", reflexos fiéis de sua realidade. Nesse momento, afirma, viu suas cicatrizes como "palavras escritas". “Aí eu paro e vejo o difícil e esgotante processo de me reconhecer e me amar loucamente de novo”, concluiu sua mensagem nas redes sociais.
Pérez e 154 outros constituintes tomaram posse em 4 de julho com a missão de responder a uma das demandas dos protestos – uma nova constituição que lance as bases para resolver o que milhões de chilenos vêm reivindicando: aposentadoria, saúde, educação, o reconhecimento da água como um direito humano, igualdade, fim do patriarcado... dignidade. A resposta a essas exigências será elaborada nos próximos dez meses, assim que a convenção formalizar seu regulamento interno, o que deverá acontecer até o fim do mês.
Pérez – integrante da Lista do Povo – é uma representante do setor que nunca abandonou a Plaza de la Dignidad, como o movimento rebatizou a Plaza Italia. Em uma terça-feira recente, enquanto os constituintes discutiam a regulamentação proposta por algumas comissões, Alejandra se levantou de sua cadeira e caminhou com passos firmes em direção à cerca que separa o antigo congresso e a rua. Ali estavam dezenas de professores de Til-Til (cidade a uma hora de Santiago) que reclamavam da falta de pagamento de sua previdência social pelo município. Depois de receber um documento com as demandas do grupo, Pérez comentou à imprensa: “Eu venho dos movimentos de rua. Eu sou uma manifestante e nunca vou tirar esse chapéu porque isso é o que eu sou”. Posteriormente, em entrevista ao #NuestrasCartas, acrescentou: “Estamos aqui pelos presos, pelos mutilados, pelos torturados, por todos os companheiros que sofreram violações dos direitos humanos desde os protestos. Porque os protestos não aconteceram apenas de outubro a dezembro de 2019, como querem que acreditemos. O povo continua mobilizado e companheiros continuam sendo detidos”.