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Sem berço, mas com apitos: desafios das mulheres no primeiro mês da Constituinte chilena

Para as mulheres, ser eleita é apenas um dos muitos desafios na política

Mulheres com um cartaz roxo
Centenas de pessoas se reuniram na frente do antigo congresso em Santiago no primeiro dia da Convenção Constitucional chilena - Matias Basualdo/ZUMA Press, Inc./Alamy Stock Photo
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“Um dia você se olha no espelho e vê as cicatrizes como feridas; o tempo passa e você não as vê mais”, escreveu no Facebook Alejandra Pérez, que passou por mastectomia dupla após diagnóstico de câncer. “E em um dia como hoje, você voltar a olhar para elas”, continuou. Naquela época, Pérez era conhecida como a candidata “sem seios”, como ela diz. Faltavam sete semanas para as eleições da Assembleia Constitucional do Chile, em que foi eleita sob a bandeira da saúde e através da imagem de seu peito nu estampados com slogans dos protestos de 2019, como "até que a dignidade se torne habitual", reflexos fiéis de sua realidade. Nesse momento, afirma, viu suas cicatrizes como "palavras escritas". “Aí eu paro e vejo o difícil e esgotante processo de me reconhecer e me amar loucamente de novo”, concluiu sua mensagem nas redes sociais.

Pérez e 154 outros constituintes tomaram posse em 4 de julho com a missão de responder a uma das demandas dos protestos – uma nova constituição que lance as bases para resolver o que milhões de chilenos vêm reivindicando: aposentadoria, saúde, educação, o reconhecimento da água como um direito humano, igualdade, fim do patriarcado... dignidade. A resposta a essas exigências será elaborada nos próximos dez meses, assim que a convenção formalizar seu regulamento interno, o que deverá acontecer até o fim do mês.

Pérez – integrante da Lista do Povo – é uma representante do setor que nunca abandonou a Plaza de la Dignidad, como o movimento rebatizou a Plaza Italia. Em uma terça-feira recente, enquanto os constituintes discutiam a regulamentação proposta por algumas comissões, Alejandra se levantou de sua cadeira e caminhou com passos firmes em direção à cerca que separa o antigo congresso e a rua. Ali estavam dezenas de professores de Til-Til (cidade a uma hora de Santiago) que reclamavam da falta de pagamento de sua previdência social pelo município. Depois de receber um documento com as demandas do grupo, Pérez comentou à imprensa: “Eu venho dos movimentos de rua. Eu sou uma manifestante e nunca vou tirar esse chapéu porque isso é o que eu sou”. Posteriormente, em entrevista ao #NuestrasCartas, acrescentou: “Estamos aqui pelos presos, pelos mutilados, pelos torturados, por todos os companheiros que sofreram violações dos direitos humanos desde os protestos. Porque os protestos não aconteceram apenas de outubro a dezembro de 2019, como querem que acreditemos. O povo continua mobilizado e companheiros continuam sendo detidos”.