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Servidores do Ibama denunciam negacionismo de militares da GLO da Amazônia com pandemia

População de município do Amazonas chegou a protestar contra militares que se recusaram a cumprir protocolos contra Covid-19

Julia Dolce
30 Julho 2021, 12.00
Ilustração: Ana Clara Moscatelli/openDemocracy

No auge da primeira onda da pandemia de Covid-19 no Brasil, em junho de 2020, um grupo de fiscais do Ibama se contaminou com o vírus após se deslocar, de diferentes estados, para uma operação de fiscalização de crimes ambientais em Rondônia. Além do pico da primeira onda do vírus, que, na época, passava pelo processo de interiorização pelo país, os servidores denunciam um outro fator que facilitou sua contaminação em massa.

Era o segundo mês da Operação Verde Brasil II da GLO da Amazônia e o planejamento da operação, apesar de ter sido inicialmente construído pelo Ibama, foi todo modificado pelo Comando do Exército assim que os fiscais pisaram em campo. Segundo relatos de múltiplos entrevistados ouvidos pelo openDemocracy, o negacionismo do Exército contribuiu para espalhar a doença tanto entre os servidores quanto entre a população em geral.

A operação em Rondônia foi a primeira e única entre as comandadas pela GLO que o fiscal Maurício*, servidor do Ibama desde 2005, participou. Ele relata que, além de uma série de arbitrariedades logísticas que aumentaram o risco de contaminação, o Exército não cumpriu em nenhum momento qualquer protocolo de segurança contra a Covid-19.

"O que mais me preocupou em campo foi o comportamento e pensamento que o Exército tinha em relação à pandemia. Eles não acreditavam em máscaras, durante um mês de operação não vi ninguém usando máscaras", revela. Durante o período que passava com as Forças Armadas (FA), Maurício lembra ter escutado todo tipo de desinformação em relação à pandemia. "Algumas frases de maluco, tipo que água tônica ajuda a prevenir Covid-19", conta.

Maurício foi um dos contaminados durante a operação. O servidor e outro colega sentiram os sintomas iniciais assim que a operação chegou em Porto Velho para se preparar para fiscalizar outros municípios. "A gente ficou sozinho no hotel em Porto Velho, sem orientação nenhuma, sem apoio do Ibama, sofrendo a pressão social e psicológica da doença", recorda. A melhora dos servidores se deu por meio da ajuda informal de colegas que moram na capital do estado.

Depois de alguns dias, entretanto, o servidor Victor Quaresma adoeceu e logo, em estado grave, teve que ser internado na UTI com 50% do pulmão lesionado. "Nos viramos nos 30, não tinha estrutura nenhuma nem vaga em hospital particular", afirma Maurício.

O caso de outro servidor contaminado na operação, Saulo L. Gouveia, virou notícia. Ele testou positivo para Covid-19 no dia 25 de junho, durante fiscalização em Apuí, município amazonense na fronteira com Rondônia, cuja economia gira, historicamente, em torno da atividade madeireira ilegal.

Saulo, à princípio, teve pedido de socorro negado pelo Ibama, sendo deixado sozinho em um hotel no município. "Ele ficou sozinho em um município de madeireiros, onde o comércio ilegal é o carro-forte e todo mundo odeia o Ibama", revela Maurício.

Apuí registrou o primeiro caso de Covid-19 em 8 de maio de 2020. No dia 22 de junho, durante presença dos militares da GLO e servidores do Ibama, o município apresentou a primeira alta na média móvel

Na ocasião, após cobrança dos colegas do servidor e pressão da mídia, o Ibama informou por meio de nota que o Exército havia disponibilizado realização do teste de Covid-19 e ambulância para transferir o servidor para Porto Velho, e que o fiscal teria recusado a oferta. Os fiscais que acompanhavam Saulo negam que o servidor tenha recebido qualquer tipo de oferta, tanto do órgão ambiental, quanto das FA.

O servidor, que atualmente responde a um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) por seu caso ter sido denunciado na mídia após publicação de carta da Associação Nacional dos Servidores de Meio Ambiente (Ascema Nacional). A associação chegou a enviar uma carta ao então presidente do órgão, Eduardo Bim, denunciando o "descaso do órgão em relação à segurança dos servidores diante da pandemia". Mais do que negligente, entretanto, o Exército colaborou para a contaminação e piora do quadro de servidores durante a operação.

Maurício denuncia que quando Saulo, já positivado para Covid-19, pediu uma carona ao Exército para não ter que se transportar até a capital do estado de ônibus, teve o pedido negado. Além disso, o fiscal revela que o único tipo de auxílio que as FA ofereceram foram os remédios de tratamento precoce e ineficiência comprovada. "O Exército só oferecia cloroquina para emergências, era o que tinha lá. A enfermeira deles falava que só tinha isso para combater a Covid-19", lembra.

O Laboratório Químico Farmacêutico do Exército brasileiro foi responsável pela produção de 3,2 milhões de comprimidos durante a pandemia. Entre setembro de 2020 e janeiro de 2021, o governo federal distribuiu 482 mil doses do medicamento produzido pelo Exército para tratar pacientes em estado grave de Covid-19, mesmo com estudos comprovando a ineficácia do tratamento.

As Forças Armadas chegaram a distribuir 66 mil comprimidos nas Terras Indígenas Yanomami e Raposa Serra do Sol, em Roraima. O Ministério Público Federal (MPF) do estado amazônico chegou a abrir um procedimento, em julho de 2020, para investigar a distribuição do medicamento entre indígenas.

Em documento enviado à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid no final de maio, o Exército afirmou ter distribuído quase 3 milhões de comprimidos de cloroquina aos estados e hospitais militares.

A secretária executiva da Ascema Nacional, Elizabeth Uema, relata que a associação reivindicou em diversos momentos que os servidores tivessem condições mínimas para garantir a continuidade da fiscalização em campo, seja EPI seja o respeito de protocolos. "Mas pouco foi providenciado em relação a isso. Era uma exposição imensa, um ator de transmissão local, e o órgão não oferecia máscara, álcool em gel, nada", denuncia.

A falta de suprimentos para os servidores do Ibama, em um contexto de desinvestimento recorde no órgão, facilitou a exposição à Covid em diferentes níveis.

A fiscal Ana*, do Amapá, também aponta a falta de apoio e proteção por parte do Ibama e do Exército. "O Ibama e a coordenação logística do Exército não se prepararam para ir a campo na pandemia", afirma. Há mais de um ano com coletes balísticos vencidos, Ana revela que servidores do órgão, em plena pandemia, tiveram que revezar coletes recém usados pela Força Nacional. "A gente não podia lavar e eles chegavam suados enquanto nossos coletes seguem vencidos", denuncia.

População de Apuí teve que protestar para soldados cumprirem protocolos de segurança

O comportamento negacionista das FA durante as operações da GLO na pandemia pode ter sido um fator de transmissão e interiorização do vírus na Amazônia. Segundo Maurício, o efetivo do Exército frequentou bares durante toda a operação em Rondônia e no Amazonas. "Um monte de soldados com 18, 19 anos. Você acha que ficaram no quartel? Eles revezam muito, trabalham com escalas, e nos dias de folga iam para boteco, risca faca, numa onda negacionista mesmo. Não duvido que espalharam o vírus por lá", afirma.

No dia 28 de abril, dois meses antes da contaminação de Saulo, a página da Prefeitura Municipal de Apuí no Facebook publicou um mapa que mostrava que o município, de população estimada pelo IBGE em 22 mil habitantes (2020), era um dos únicos quatro municípios do Amazonas que ainda não registrava casos de Covid-19.

A ação da GLO no município teve início no dia 18 de junho, com o deslocamento do 54º Batalhão de Infantaria da Selva (54º BIS) para o município, no âmbito da Verde Brasil II.

Os dados epidemiológicos do município, disponíveis pelo DataSus, revelam que o primeiro caso de coronavírus no município foi registrado no dia 8 de maio de 2020. No dia 22 de junho, durante presença dos militares da GLO e servidores do Ibama, o município apresentou a primeira alta na média móvel de casos registrados, com sete notificações.


Após duas semanas, a partir do dia 2 de julho, o município começou a registrar crescimento diário de casos de Covid-19. Um dos maiores picos pandêmicos em Apuí aconteceu em 20 de agosto, quando 41 novos casos foram registrados no mesmo dia. No dia 13 de julho, o primeiro boletim epidemiológico publicado nas redes sociais da Prefeitura do município contabilizava 224 casos notificados de Covid-19 e outros 85 casos suspeitos. Apuí teve 31 óbitos por Covid-19 até hoje. O primeiro óbito ocorreu no dia 20 de setembro.

Maurício revela ainda que, de tanto descumprir protocolos, o Exército foi cobrado pela própria população de Apuí. Os soldados ficaram alojados em uma escola municipal e vigias revezavam a guarda da base. "Eles ficavam guardando o portão sem nem usar máscara. Aí teve reclamação, o povo foi fazer um protesto em frente à base, com carro de som e tudo. Aí reclamaram na Prefeitura e o prefeito teve que entrar em contato com o pessoal do Exército", conta.

Depois do episódio, o comando do Exército começou a exigir que os vigias em frente à base usassem máscara, mas nada mudou dentro dos alojamentos. "Nunca vi ninguém usando, era livre".

Segundo Elizabeth Uema, chegaram inúmeros relatos à Ascema Nacional de reuniões entre servidores do Ibama e o comando da GLO em que os militares não respeitavam os protocolos. "Os servidores iam para as reuniões das operações com os generais e, por conta do negacionismo, eles não usavam máscaras. Uma série de colegas voltaram das operações da GLO com Covid-19".

A reportagem entrou em contato com a Secretaria de Saúde do município de Apuí. A secretária, Alexandra Pascoal, afirmou que não se recorda de manifestação, mas que a gestão de fato teve que realizar uma reunião com o comandante do Exército e "explicar o decreto que estava vigorando".

*Errata: Depois da publicação da matéria, fomos procurados pelo advogado de Saulo L. Gouveia, Sávio Cavalcante, que retificou algumas informações. O texto foi atualizado.


Esta reportagem faz parte do especial 'Cinzas da Verde Brasil', desenvolvido por Julia Dolce para o openDemocracy.

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