democraciaAbierta: Opinion

Bolsonaro radicaliza táticas fascistas diante das eleições

Diante das pesquisas que apontam vitória de Lula, o presidente aposta em mentiras deliberadas, assédio legal e violência verbal

Jean Wyllys
17 Agosto 2022, 12.00

Acuado pelas pesquisas de intenção de voto que apontam a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva já no primeiro turno das eleições, Bolsonaro e seu governo aprofundam suas táticas fascistas, que vão desde a mentira deliberada até o assédio jurídico, passando, claro, pela violência verbal.

Ciente de que vai perder as eleições, Bolsonaro e os militares de seu governo vêm jogando suspeição sobre o sistema eleitoral que o elege há mais de 30 anos, em relação ao qual ele nunca havia apresentado nenhuma queixa. A acusação é de que as urnas eletrônicas podem ser fraudadas.

Além disso, Bolsonaro tem espalhado nos grupos bolsonaristas no WhatsApp e no Telegram, grupos que não podem ser escrutinados por serem mídias sociais fechadas, que se o atual presidente não conquistar 70 milhões de votos é porque as eleições foram fraudadas. Detalhe: Bolsonaro foi eleito com 57,7 milhões de votos nas eleições passadas. Ou seja, ele não vai poder, nem poderia jamais, ter 70 milhões de votos — principalmente em uma eleição em que consistentemente aparece atrás de Lula.

Umberto Eco, no seu ensaio ‘O fascismo eterno’, aponta como uma das características do fascismo o chamado populismo seletivo, aquele em que a emoção ou a vontade de um grupo seleto de pessoas é confundido ou apresentado como a voz do povo, como a verdade absoluta. O populismo seletivo tem sido uma das armas de Bolsonaro durante esta campanha eleitoral. Aquilo que sua seita acredita ser verdade, é apresentado como a verdade.

Como ele tem apresentado aos seus seguidores a mentira de que as urnas eletrônicas serão fraudadas, os seus seguidores acreditam que ele terá impossíveis 70 milhões de votos. O contrário indica, sim, fraude eleitoral. A vontade de uma minoria, a emoção dos membros de uma seita – porque o bolsonarismo é uma seita – é apresentado como a vontade do povo, como a verdade.

Outra de suas táticas fascistas envolve um comportamento de Bolsonaro de longa data. Bolsonaro venceu as eleições perpetrando um discurso de ódio contra minorias — contra a comunidade LGBT, contra as pessoas pretas e pobres, contra os quilombolas, contra as mulheres, contra os povos indígenas e contra a esquerda de uma maneira geral.

Bolsonaro disse textualmente que ele, vencendo as eleições em 2018, levaria a dissidência e oposição política à “ponta da praia”, lugar de execução durante a ditadura militar. Em outras palavras, Bolsonaro afirmou que sua especialidade é matar.

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O presidente brasileiro implementou medidas populistas, mas sua real aposta para se manter no poder é muito diferente

E não era blefe. Através de seu negacionismo e políticas irresponsáveis como a promoção de medicamentos ineficazes para o tratamento da enfermidade durante a pandemia de Covid-19, Bolsonaro contribuiu de forma direta para a morte de 700 mil pessoas. Bolsonaro também fechou os olhos ou negligenciou a ação criminosa de traficante de madeiras e garimpeiros ilegais em terras indígenas, assim como negligenciou o assassinato de lideranças políticas.

Entretanto, quando Lula caracterizou Bolsonaro como genocida em uma recente entrevista, Bolsonaro — que está sendo acusado de genocídio no Tribunal Penal Internacional — cometeu assédio jurídico contra o ex-presidente, acusando o atual favorito a ganhar as eleições de discurso de ódio.

Essa é a outra característica do fascismo: a inversão de valores, a corrupção dos fatos. Quem profere discursos de ódio é Bolsonaro. Quem fez uma campanha baseada em discurso de ódio é Bolsonaro. Ao longo de quatro anos, Bolsonaro proferiu discursos de ódio contra jornalistas, contra a imprensa de maneira geral, contra líderes políticos. Entretanto, ele agora inverte as cartas através de assédio jurídico, fazendo sete citações ao Tribunal Superior Eleitoral em que acusa Lula de discurso de ódio.

Agora que a campanha eleitoral começou pra valer, Bolsonaro não esconde as diferentes formas em que está radicalizando suas táticas fascistas.


O Informante é a vídeo-coluna de Jean Wyllys para o openDemocracy/democraciaAbierta em que analisa as armadilhas da desinformação e publicada aqui em forma de artigo.

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