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Chile elegerá novo presidente em eleições marcadas pela surpresa e descrença política

O esquerdista Gabriel Boric e José Antonio Kast, conhecido como Bolsonaro chileno, lideram as pesquisas das eleições de domingo

democracia Abierta Manuella Libardi
19 Novembro 2021, 12.00
Manifestante atravessa barricada segurando bandeira mapuche durante protestos contra o governo de Sebastian Piñera, em Santiago, em 4 de novembro de 2021
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Matias Basualdo/ZUMA Press, Inc./Alamy Stock Photo

Desde que implementou o primeiro projeto neoliberal na década de 1970, o Chile tem se mostrado um laboratório político-social. Em 2021, o país continua sendo um espelho das tendências globais. Depois de rejeitar a política tradicional ao eleger um número impressionante de constituintes independentes para reescrever sua Constituição, os chilenos parecem estar caminhando na mesma direção diante das eleições presidenciais no próximo domingo, 21 de novembro, ao desfavorecer candidatos de centro.

As projeções mostram extrema polarização entre os cidadãos – tendência já consolidada na América Latina. Pesquisas recentes indicam que os dois candidatos que lideram as intenções de voto são Gabriel Boric, ex-líder estudantil da coalizão esquerdista Apruebo Dignidade, que inclui a Frente Ampla e o Partido Comunista, e José Antonio Kast, representante da extrema-direita do Partido Republicano.

Os chilenos irão às urnas pouco mais de uma semana após o Congresso confirmar o impeachment do atual presidente, Sebastián Piñera, motivado pelo surgimento de evidências de suposta corrupção na venda da mina Dominga reveladas pelos chamados Pandora Papers. Na quarta-feira, 17 de novembro, o Senado rejeitou a decisão do Congresso, absolvendo assim o politicamente enfraquecido e impopular presidente.

A crise política e institucional no Chile de Piñera enfraqueceu ainda mais os partidos e candidatos de centro, aumentando a popularidade de polos opostos, como aconteceu em outras eleições na região, como Equador, Bolívia e Peru. No entanto, 23% da população permanece indecisa poucos dias antes de ir às urnas, o que indica que estas serão eleições marcadas pelo fator surpresa.

Kast, o Bolsonaro chileno

Em todo caso, Kast, também conhecido como Bolsonaro chileno, lidera as projeções mais recentes para o primeiro e segundo turnos. O candidato disparou nas pesquisas nas últimas semanas, popularidade acompanhada por um discurso de apologia às políticas de Augusto Pinochet e retórica que responde ao descontentamento da classe média chilena que não se sente representada pelo progressismo refletido na Convenção Constituinte.

Como os líderes populistas de direita de sua geração, Kast gosta de polemizar em suas redes sociais, prometendo acabar com a "ideologia de gênero", minimizando as demandas das comunidades indígenas e apelando para sentimentos racistas em relação aos migrantes do país.

Diante das eleições de 2017, nas quais concorreu pela primeira vez, afirmou ser o herdeiro político do sangrento general. "Se estivesse vivo, votaria em mim", disse na época. Na última eleição, Kast terminou em quarto, conquistando menos de 8% dos votos.

Desde então, Kast vem construindo sua base principalmente sobre questões de segurança e violência. “Nos chamam de intolerantes e radicais, porque falamos a verdade e dizemos as coisas na cara. Ao contrário da esquerda, nunca endossamos a violência”, tuitou Kast em 29 de outubro.

Da mesma forma, a popularidade de Kast disparou em face do crescente movimento anti-imigração no Chile devido ao influxo de migrantes venezuelanos, que culminou com a marcha "Não + Migrantes" no final de setembro. Kast foi rápido em capitalizar essa onda e disseminar sentimentos anti-imigrantes.

Reforma eleitoral recente gera esperança

O Chile parece estar seguindo o mesmo caminho extremista que Brasil e Equador. Mas há esperança. Em 2015, o Chile promulgou uma reforma eleitoral que levou a uma maior proporcionalidade representativa em suas eleições legislativas, conforme argumentou Isaac Hale em um estudo publicado em Representation: Journal of Representative Democracy.

Segundo Hale, os frutos da reforma se viram refletidos nas eleições de 2017, nas quais o número de representantes de partidos não tradicionais subiu de 3% para 17%. As cadeiras conquistadas por mulheres também aumentaram consideravelmente como resultado. Segundo o pesquisador da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara, a reforma eleitoral deve refletir uma futura mudança nos sistemas eleitorais em todo o mundo.

A preferência por candidatos não tradicionais ficou evidente durante a votação de maio, em que os chilenos elegeram os 155 constituintes encarregados de substituir a Constituição de 1980. Cerca de um terço dos representantes eleitos são independentes, ou seja, não têm vínculo com nenhum partido político. Os candidatos alinhados ao governo Piñera conseguiram apenas 37 cadeiras – menos de um quarto do total e bem abaixo dos dois terços necessários para aprovar a Carta Magna. Os chilenos também elegeram um número recorde de constituintes mulheres, fazendo desta a primeira constituinte com paridade de gênero do mundo.

Dessa forma, os chilenos institucionalizaram sua insatisfação com a política tradicional, que já havia ficado clara durante os protestos generalizados que começaram em outubro de 2019. Os chilenos também demonstraram que querem políticos que espelhem a população. Embora Kast também aposte no sentimento antipolítico e anti-establishment, o surto social histórico mostrou que os chilenos querem igualdade social, algo incompatível com as políticas liberais que geraram a atual insatisfação generalizada entre a população – as mesmas que defende Kast.

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