Beyond Trafficking and Slavery: Feature

Cruzar a fronteira EUA-México, só para ver

Atravessar para o país vizinho é a salvação para alguns. Para outros, é uma aventura

29 Junho 2022, 12.00
El Paso ao fundo
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Fernando Loera
Omar

Eu nunca tinha pensado em cruzar a fronteira para o Texas. Mas naquele momento, mudei de ideia. Eu queria saber como era estar ali. Conhecer aquele lugar. Eu não estava planejando ficar lá; queria apenas entrar e sair. Eu queria ver.

No começo eu senti medo. Mas uma vez na travessia, fiquei empolgado. Senti uma descarga de adrenalina. Éramos quatro: eu, meu cunhado e mais dois. Levamos três horas para atravessar. Estávamos esperando a mãe do meu cunhado nos buscar, mas ela teve que se esconder da Patrulha da Fronteira e não conseguiu. Nós tentamos continuar de qualquer maneira e foi quando a Imigração dos EUA nos pegou. Eles estavam a cavalo.

Não entrei em pânico quando me viram. Eu pensei, "Se nos pegarem, tudo bem". Eu sabia que, por ser menor de idade, eles me mandariam de volta para o México. E os homens nos cavalos se comportaram bem. Nos deram algo para comer e cobertores. Nos fizeram perguntas sobre quantas vezes já havíamos cruzado, quantos anos tínhamos, etc. E tiraram nossas impressões digitais e fotos. Nos trataram bem.

Leia a mesma história, contada pela mãe de Omar

Eu nunca ajudei pessoas a cruzarem. Nunca me atraiu. Um amigo uma vez me ofereceu 400 pesos (US$ 20) para ajudá-lo a segurar as escadas que eles usam para escalar o muro da fronteira. Mas eu recusei. Não é que eu estava com medo. E ninguém tentou me forçar. Simplesmente não era o que eu queria fazer.

Meu primeiro trabalho foi com meu irmão em uma oficina consertando brocas, polidores e outras ferramentas. Eu tinha 15 anos e era apenas para ser um trabalho de verão. Mas gostei mais do que ir para a escola e acabei ficando mais de um ano. Eu ganhava pouco: 500 pesos (US$ 25) por semana. Tão pouco, na verdade, que às vezes eu tinha que comprar meus burritos de almoço no crédito. Eu gostava do trabalho, mas não gostava do salário.

Não é que eu estava com medo. Simplesmente não era o que eu queria fazer

Depois disso, consegui um emprego na maquiladora (fábrica de montagem) onde minha mãe trabalhava. Eles pagavam mais, cerca de 1.250 pesos por semana (US$ 63). Os benefícios também eram bons: incluíam alimentação e transporte. O ônibus nos buscava às 5h e trabalhamos até as 20h. Gastei o dinheiro que ganhei em roupas, outras coisas de que precisava e, às vezes, em despesas domésticas. Gostei do trabalho na maquiladora. Como eu era o mais novo, fiquei amigo de todos. Era divertido. Cheguei até a operador, manuseando uma grande máquina que achata de metal.

Mas esse trabalho acabou. Fiz uns bicos depois disso. Ajudei a renovar uma AutoZone por duas semanas. Mas não gostei desse trabalho. Eles nos faziam trabalhar sete dias por semana e chegar lá era difícil – ao contrário da maquiladora onde eles te buscam e te alimentam. Então eu deixei aquele emprego. Agora preciso encontrar outro.

Eu me matriculei novamente em uma escola que reabriu há pouco tempo e consegui meu diploma do ensino médio. Levou apenas alguns meses. Depois disso, tentei aprender mecânica, mas a Covid-19 atrapalhou. Vou tentar de novo, desta vez com eletrônica. Gosto de consertar coisas e, se estudar, posso conseguir um novo emprego na fábrica de eletrônicos. Isso é o que tenho em mente.


Esta história faz parte de uma série de depoimentos de crianças e mães que vivem em Ciudad Juárez, na fronteira EUA-México. Todas os menores foram pegas cruzando para os EUA, seja para perseguir aspirações pessoais ou para contrabandear pessoas, e agora estão recebendo serviços de justiça restaurativa da ONG Derechos Humanos Integrales en Acción (DHIA). Os relatos foram coletados juntamente com os defensores do DHIA e foram editados para maior clareza. A ilustração é uma representação fictícia produzida por Carys Boughton (Todos os direitos reservados). O nome do narrador também foi alterado.

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