Quando deixei os confins de casa alguns meses após o começo da pandemia de Covid-19, me assustei com cenas das que pensei ter me despedido na década de 90. Famílias inteiras nas ruas, crianças de até 4 anos pedindo troco no semáforo, homens deitados nas calçadas de bairros nobres, desmaiados de fome ou de intoxicação ou de uma combinação de ambos.
Essa realidade era comum na minha infância no Brasil, na esteira da crise hiperinflacionária. À medida em que cresci e o Brasil se tornou mais estável, um número crescente de brasileiros deixou as ruas. A pobreza caiu em números recordes entre 1992 e 2013, marcadamente depois de que Luiz Inácio Lula da Silva assumiu a presidência em 2003.
Três décadas depois, o Brasil e seus vizinhos latino-americanos voltam a níveis de pobreza não vistos em gerações. Em meio às crises econômicas e sociais agravadas pela pandemia, a região está vendo uma mudança em suas preferências políticas com a eleição de líderes de esquerda, após mais de uma década de governança de direita.