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Pedro Castillo na arena da instabilidade peruana

O presidente de esquerda começou seu mandato frente a um establishment assustado e determinado a sabotar seu governo

democracia Abierta Manuella Libardi
18 Fevereiro 2022, 12.00
Os primeiros seis meses de Pedro Castillo constituem o 'pior começo' de um governo eleito em décadas
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Mary Altaffer/UPI/Alamy Stock Photo

O Peru vive em constante crise institucional desde as eleições de 2016, quando a vitória do presidente Pedro Pablo Kuczynski desencadeou intensos conflitos com um Congresso liderado por Keiko Fujimori. A crise se intensificou com o escândalo de corrupção que levou à renúncia de Kuczynski em março de 2018. Em setembro de 2019, seu sucessor, Martín Vizcarra, dissolveu o Congresso, que por sua vez suspendeu o presidente por "incapacidade temporária".

Os meses seguintes foram marcados pela falta de governança. Para diversos setores da população, a remoção de Vizcarra representou abuso de poder dos parlamentares, reivindicação atenuada pela crise social e econômica desencadeada pela pandemia de Covid-19. Quando o Congresso nomeou Manuel Merino como presidente interino em novembro de 2020, os peruanos saíram às ruas de várias cidades para protestar contra o "Congresso usurpador". Diante da revolta popular, Merino permaneceu apenas seis dias no cargo, sendo substituído por Francisco Sagasti.

Finalmente, em abril de 2021, os peruanos foram às urnas com a tarefa de eleger quem seria o sexto presidente do Peru em cinco anos. As eleições foram marcadas pela polarização e o descontentamento da população com o status quo. O candidato outsider de esquerda, Pedro Castillo, venceu o primeiro turno com 19% dos votos. Ele disputou o segundo turno em junho contra Keiko Fujimori, candidata de extrema-direita, que obteve apenas 13% dos votos. A fragmentação dos blocos tradicionais fez com que dois extremos se enfrentassem no segundo turno.

Após um mês convulsivo em que Fujimori denunciou fraude eleitoral, a vitória de Castillo foi confirmada em julho. O professor rural e ex-líder sindical, sem experiência política ou fortes alianças, começou seu mandato com pouco conhecimento dos obstáculos ​​que enfrentaria: uma classe política dividida e altamente corrupta, um establishment assustado e determinado a sabotar sua presidência, alguns pactos difíceis de legislar no Congresso e uma agenda urgente em muitas frentes.

Castillo acentua a instabilidade do Peru

Em seus primeiros seis meses no cargo, Castillo nomeou quatro gabinetes diferentes, fazendo do seu o "pior começo" de um governo eleito em décadas. A mais recente mudança de gabinete aconteceu este mês, quando seu primeiro-ministro, Héctor Valer, renunciou em meio a acusações de violência doméstica.

Em seus primeiros seis meses, Castillo nomeou quatro gabinetes diferentes, fazendo do seu o 'pior começo' de um governo eleito em décadas

O ano já começou com dificuldades legais para Castillo, que passou a ser investigado pelo Ministério Público em janeiro por tráfico de influência, mostrando que os problemas jurídicos do presidente não ficariam em 2021.

Para muitos, a incapacidade de Castillo de governar efetivamente nestes primeiros meses confirma suas dúvidas sobre o poder do ex-líder sindical de pôr fim à instabilidade que parece ter se instalado permanentemente na vida política dos peruanos.

Em outubro, com apenas três meses no governo, Castillo já enfrentava um processo de impeachment, orquestrado por um grupo de empresários com o objetivo de "tirar o comunismo" do governo. No mês seguinte, Fujimori anunciou que seu partido, Força Popular, apoiaria uma moção para remover Castillo do cargo.

Embora a iniciativa não tivesse muitos méritos legais, ajudou a desestabilizar o governo e trazer escândalos à tona. Durante as investigações sobre o impeachment, as autoridades encontraram US$ 20 mil escondidos em um banheiro do palácio presidencial em novembro. O secretário de Castillo, Bruno Pacheco, afirmou ser seu o dinheiro, mas argumentou se tratar de uma combinação de seu salário e poupanças. Apesar de negar qualquer crime, Pacheco renunciou ao cargo para proteger Castillo.

Da mesma forma, as investigações também se concentraram no caso Casa de Breña, uma propriedade em Lima onde Castillo supostamente se reunia com políticos e empresários sem registro público, o que poderia constituir uma violação das normas de transparência e levantou suspeitas de corrupção.

Em dezembro, o Congresso rejeitou a abertura de impeachment contra Castillo. Apesar de sobreviver à tentativa de destituição, Castillo continua incapaz de governar. A grande maioria dos peruanos também está insatisfeita. Uma pesquisa de 13 de fevereiro mostra que Castillo tem uma taxa de reprovação popular de 69%, um aumento de 9% em relação a janeiro. Apenas 25% dos entrevistados o apoiam.

Polarização ainda forte

A mesma pesquisa também mostra que, apesar de alta, a rejeição a Castillo se concentra principalmente em Lima e entre as camadas sociais mais altas do país. Entre o setor mais pobre da população, a aprovação do governo de Castillo chega a 40%, consideravelmente mais alta à média nacional de 25%. Desta forma, o governo de Castillo cimenta a antiga lacuna histórica entre o Peru urbano e o Peru rural e amazônico.

Apesar de sobreviver à tentativa de impeachment, Castillo continua incapaz de governar

Castillo também assumiu a presidência como o único presidente de esquerda em décadas de governo. Quando a maioria de seus vizinhos latino-americanos guinaram à esquerda na década de 2000 durante a Onda Rosa, o Peru permaneceu impassível na centro-direita.

Castillo parece não ter as ferramentas para promover as reformas sociais necessárias no país, algo que fica ainda mais evidente com a ruptura interna que vem tendo com seu próprio partido, o Peru Livre. Desde que assumiu a presidência, Castillo vem se afastando da esquerda de onde veio, indo cada vez mais para o centro, com alguns críticos afirmando que já está à direita do espectro político.

Essa suspeita se acentuou no início do mês, quando Castillo se reuniu com o presidente de extrema-direita do Brasil, Jair Bolsonaro, que vem pressionando seu par peruano para permitir a construção de uma rodovia que daria ao gigante brasileiro acesso ao Pacífico. O projeto tem forte oposição no Brasil, onde ambientalistas e promotores federais alertam que a rodovia cruzaria 110 km do Parque Nacional da Serra do Divisor, uma das áreas mais virgens e biodiversas do Brasil.

Pedro Castillo, sozinho e isolado, mostra que não tem a experiência necessária para governar uma classe política e econômica determinada a manter o status quo. Mas diante de um Congresso de direita que também não conta com o apoio da população, o novato tem algumas vantagens, principalmente a de legitimidade. Afinal, Castillo foi eleito democraticamente pelos peruanos, algo que seus três antecessores não podem dizer. Castillo precisa buscar o consenso político, começando por seus círculos próximos.

Apesar dos significativos contratempos iniciais que colocam em dúvida sua capacidade como governante, Castillo ainda tem tempo – mas precisa começar a arrumar a casa imediatamente se quiser construir seu castelo na arena da profunda instabilidade peruana.

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