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Ofensiva russa na Ucrânia deve continuar por semanas – se não meses

Quaisquer grandes concessões de Putin arriscariam não apenas sua visão de uma Grande Rússia, mas também seu futuro

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Paul Rogers
24 Março 2022, 12.00
Destroços de edifícios em Mariupol enchem as ruas enquanto a invasão da Ucrânia pela Rússia continua, 12 de março
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UPI/Alamy Live News

Quando Vladimir Putin ordenou que as forças entrassem na Ucrânia, ele esperava que tudo fosse resolvido em alguns dias. Agora, na quarta semana de guerra intensa, com mais de 10 mil mortos e cidades ucranianas continuamente bombardeadas, um padrão sombrio está surgindo. No curto prazo, nem a Ucrânia nem a Rússia devem atingir seus objetivos.

Por quê?

Como Steve Trimble e Piotr Butowski escreveram no principal jornal de segurança dos EUA, Aviation Week and Space Technology, Putin esperava que três coisas acontecessem:

  • “As defesas aéreas, a força aérea e os centros de comando da Ucrânia seriam atingidos por potencialmente centenas de mísseis isolados em um ataque aéreo inicial.
  • As principais cidades do leste, como Kharkiv, cairiam no primeiro dia, quando dezenas de grupos táticos de batalhões russos atropelassem um exército ucraniano desarmado.
  • O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, correria o risco de ser capturado ou morto nos primeiros dois dias, quando as forças russas invadiriam Kiev para trazer um fim brutalmente rápido a uma guerra amplamente condenada.”

O sucesso da invasão dependia da rápida execução desses três objetivos principais antes que as forças da Ucrânia e a OTAN tivessem tempo de responder, sendo o mais importante a rápida queda do governo Zelensky. A invasão fracassou, o que pode ser em parte devido à incompetência e má liderança das forças russas, bem como a crença de que as tropas invasoras seriam bem-vindas pelas forças ucranianas. A ocupação de todo o país nunca havia sido prevista – simplesmente não foi pensado que seria necessário, e toda a operação foi planejada sem a mobilização nacional russa.

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Agora está claro que, três ou quatro horas após o início da ofensiva russa, o plano de guerra desmoronou e nunca se recuperou. Isso ocorreu devido ao fracasso de um elemento-chave: um ataque aéreo ao aeroporto Antonov, 30 km a noroeste do centro da capital Kiev.

Nas primeiras horas de 24 de fevereiro, o dia em que o ataque começou, mais de 25 helicópteros russos desembarcaram tropas para proteger a pista e permitir que uma grande força de tropas do 334º Regimento de Aviação de Transporte Militar fosse transportada de Pskov, no oeste da Rússia. Enquanto isso, a Ucrânia reconheceu o risco e acionou a 4ª Brigada de Reação Rápida para se opor à operação. Na mesma noite, o aeroporto estava de volta às mãos ucranianas. Os russos então trouxeram uma enorme força de tropas em 200 helicópteros e recapturaram a base no dia seguinte, mas já era tarde demais para apoiar a tentativa de tomar Kiev.

Esse detalhe é significativo porque esse elemento do plano russo foi realizado por unidades russas de elite, não pelas unidades apoiadas por conscritos que desde então vêm tendo problemas de moral. O desempenho tão ruim de algumas das unidades mais profissionais do Exército russo foi uma surpresa para muitos na OTAN. Em 26 de fevereiro, ficou claro que a operação tinha sérios problemas, o que foi sem dúvida o fator mais importante por trás do discurso de Putin de 27 de fevereiro, que alertou a OTAN para não se envolver diretamente sob ameaça de uma resposta nuclear.

Nas duas semanas seguintes, as forças russas tentaram se reagrupar, trouxeram forças de reserva e mudaram para uma estratégia de atacar cidades, utilizando bombardeios aéreos e de artilharia intensivos – resultando em terríveis baixas civis. Os russos tomaram algum território, principalmente ao longo da costa do Mar Negro e em Donbas, mas não invadiu nenhuma grande cidade.

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Estimativas conservadoras colocam as perdas russas em 7 mil mortos em três semanas, o que, no cálculo da guerra moderna, significa que mais de 20 mil teriam sido gravemente feridos. Este é um número de baixas maior do que o dos Estados Unidos em 8 anos no Iraque e 20 no Afeganistão juntos. A moral está baixa em muitas das unidades russas, enquanto o regime de Putin também enfrenta problemas formidáveis ​​com as sanções econômicas internacionais.

O regime pode dominar as comunicações domésticas, mas ainda há muita oposição à guerra entre os russos, mesmo com 14 mil pessoas já presas por protestar. Se a experiência de outras guerras servir de indicador, as baixas crescentes terão um efeito cumulativo. Durante os oito anos em que os franceses lutaram contra o Viet Minh, a guerra da Indochina se tornou tão impopular que a perda de guarnição estratégica em Dien Bien Phu, em maio de 1954, pôs fim ao conflito em três meses.

Na eleição presidencial de 2004 nos Estados Unidos, George W. Bush abertamente defendeu sua invasão do Iraque, mas em 2008, Barack Obama incluiu a promessa de trazer as tropas para casa em sua campanha eleitoral, uma postura impensável quatro anos antes. Embora essas mudanças de atitude tenham ocorrido em uma escala de tempo mais ampla, a intensidade das perdas russas é muito maior.

Para a Ucrânia, a guerra tem tido um preço altíssimo, mas o nível de comprometimento das forças armadas e da sociedade civil – auxiliados pela liderança de Zelensky – é notável. A prolongação da guerra faz outro aspecto se mover a favor da Ucrânia: a enxurrada de armamentos e material de guerra que atravessa a fronteira dos países da OTAN. Somente os Estados Unidos prometeram e já entregaram parcialmente 1,4 mil mísseis antiaéreos, 11,6 mil armas antiblindagem, 100 drones armados, 7,4 mil armas de pequeno porte, cerca de 60 milhões de munições para armas de pequeno porte, 25 mil de armaduras e muito mais. Outros Estados da OTAN também estão adicionando ao total.

Enquanto isso, as forças de Putin têm cerca de 180 mil soldados em combate, mas ainda não estão perto de cercar Kiev. Mais tropas estão sendo destacadas de unidades russas na Armênia e Geórgia, bem como de unidades de reserva do próprio Distrito Militar Oriental da Rússia, embora analistas nos EUA duvidem que isso faça muita diferença.

As baixas russas em três semanas são mais altas do que as dos Estados Unidos em 8 anos no Iraque e 20 no Afeganistão juntas

Há vários relatos de negociações e possíveis acordos de paz entre os dois lados. Embora possa haver alguma chance de progresso, Putin não parece disposto a fazer concessões substanciais. Quaisquer grandes concessões de Putin arriscariam não apenas sua visão de uma Grande Rússia, mas também seu futuro – e o daqueles em seu círculo próximo. Por enquanto, o Kremlin persistirá com seus ataques às cidades ucranianas, talvez concentrando-se nas mais importantes estrategicamente, como Mariupol. Também deve realizar ataques simbólicos em cidades mais distantes, como no caso do ataque de mísseis de cruzeiro perto de Lviv, cujo objetivo principal é disseminar o medo.

Pode parecer excessivamente pessimista, mas julgando por seu comportamento recente, a guerra de Putin continuará por semanas e possivelmente meses. Ele pode até repetir sua ameaça de escalada, a menos que a OTAN cesse seu fluxo de armas. Em outras circunstâncias, um impasse sombrio poderia levar a um acordo, mas o comportamento de Putin não é representativo de tempos comuns.

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