Beyond Trafficking and Slavery: Feature

‘Sempre acharão um jeito de cruzar': as crianças que traficam pessoas

Com poucas oportunidades na fronteira, muitos jovens encaram o trabalho perigoso, mas bem pago, do tráfico humano

1 Julho 2022, 12.00
Graffiti no muro da fronteira EUA-México
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Mike Hardiman/Alamy Stock Photo

Aviso: este relato contém descrições de violência.

Luís

Trabalhei com muitas coisas. Já fui instalador de cabos de internet e eletricidade. Trabalhei em obras e vendi roupas no centro da cidade. Uma vez até ajudei a derrubar um morro com uma daquelas máquinas enormes que você usa para cavar buracos.

Comecei a procurar emprego aos 14, talvez 15 anos. Não estudava – não fazia nada – e não queria perder tempo. Eu queria comprar coisas para mim. A primeira coisa que comprei foi um par de tênis e algumas roupas. Eu dei o resto do dinheiro para minha mãe. Sempre que eu recebia, dava um pouco para La Jefa – minha mãe – e o que sobrava eu ​​gastava no que queria.

Construção é o trabalho mais difícil que já fiz. Você passa muito tempo no sol e tudo o que faz é trabalho pesado. Você mistura concreto, carrega em baldes, coisas assim. O calor do deserto piora tudo. Você pode facilmente ter insolação porque não há sombra. Também é perigoso. Já vi pedreiros caírem de andaimes porque as tábuas se soltam ou a furadeira de impacto dá tranco para trás. Eu vi uns caras caírem de cerca de 3 m de altura. Foi horrível. Não oferecem seguro de saúde nem nada, então se você se machucar, o máximo que os capatazes fazem é deixar você ir embora.

Comecei a trabalhar de pedreiro com meus irmãos. Um homem que morava perto da minha casa vinha nos buscar todos os dias às 7h e nos levava ao local. Alguns caras tinham a minha idade, os outros eram mais velhos. Na maioria dos dias voltávamos por volta das 17h, mas outras vezes não voltávamos até às 20h ou 21h. Trabalhávamos cinco dias por semana e meio dia aos sábados, então era muito tempo no sol. Por todo esse trabalho, ganhávamos 1,8 mil pesos por semana (US$ 88). Naquela época, eu chegava em casa no sábado e saía o resto do fim de semana. Mas não faço mais isso depois do que aconteceu com meu irmão. Eu não saio mais de casa.

Perguntaram por que eu estaria procurando o sonho americano se morava tão perto

A imigração nos pegou na primeira vez que cruzamos a fronteira para El Chuco (El Paso, Texas). Um amigo de lá convidou eu e meu irmão para irmos. Seu pai trabalha na construção. Meu amigo nos ofereceu um emprego e um lugar para ficar. Por isso fomos.

Achei que encontraria trabalho lá e voltaria para Juárez um tempo depois com meu próprio carro. E pensei em ganhar algum dinheiro com qualquer coisa que pudesse fazer por lá. Mas para ser bem honesto, o ambiente em El Chuco é desagradável. Lá você não tem vida. Você não pode sair se for migrante. Só vai de casa para o trabalho e pronto. Você vive como um prisioneiro. Você não pode viver lá do jeito que você vive aqui. A única razão pela qual eu estava indo era para trabalhar e fazer dinheiro.

Naquela primeira vez, havia cerca de seis de nós tentando atravessar. Os outros vieram de lugares diferentes, como Honduras. Estávamos nervosos. Dá medo. Muito medo.

Caminhamos até o local onde a cerca acaba. Conseguimos atravessar a fronteira e também cruzamos os trilhos. Chegamos ao ponto de encontro, mas demorou um pouco para o transportador chegar, então a migra (polícia de imigração dos EUA) nos pegou. Eles chegaram em seus grandes caminhões. Nos trataram muito mal. Quando você é daqui, dos bairros próximos à fronteira, eles automaticamente pensam que você é quem está guiando as pessoas.

Eu disse que não era guia. Disse sarcasticamente que “estava procurando o sonho americano”. Responderam que eu deveria saber como as coisas funcionavam e perguntaram por que eu estaria "procurando" o sonho americano se morava tão perto. Fiquei bravo. Me trancaram em uma cela que chamam de icebox (geladeira). Estava congelando e se recusaram a me dar um cobertor. Quando pedi um, responderam que não estava em um hotel. Eu não fiquei lá muito tempo. Me expulsaram durante a noite e me mandaram de volta para o México.

A Imigração dos EUA não me fez perguntas, mas a equipe que nos interrogou quando chegamos a Juárez sim. Eles queriam saber quantos migrantes estávamos ajudando a atravessar. Eles perguntaram isso várias vezes. Eu disse que estava sozinho. Fora isso, me trataram bem. No local havia beliches e uma TV e eu pude comer um pouco de macarrão. Meus pais me repreenderam assim que chegaram para me buscar. Ficaram repetindo que não era para eu cruzar nunca mais. Que eu preciso aprender a ouvir – essas coisas de sempre.

Tentei cruzar pessoas há cerca de um mês ou dois. Desta vez foi diferente. Eu queria ganhar algum dinheiro, e a oferta era de US$ 300 por pessoa. Havia quatro ao todo, e eu liderei o grupo sozinho. A imigração os pegou no caminho, mas eu cheguei até o ponto de encontro. Esperei cerca de cinco horas escondido. As pessoas do lado do Texas nunca enviaram o transportador, então tive que me render. Passei três dias preso no abrigo dessa vez.

Há muito desse tipo de trabalho agora, mas a situação está difícil em todos os lugares. A guarda nacional foi mobilizada ao lado da polícia para conter os migrantes. As cidades e a fronteira foram fortificadas. Acho que os gringos gostam da presença de policiais lá. Mas as pessoas sempre acharão um jeito de atravessar.

Eles veem minhas tatuagens e pensam que sou um criminoso

Eu tenho todas essas tatuagens. Essa aqui é um cartoon. Essa é dos Simpsons. Esse é o nome da minha mãe. Essa eu fiz porque disseram que se eu aguentasse a dor saía de graça. E essa eu fiz em homenagem ao meu irmão, o que foi assassinado.

Minha mãe se preocupa porque as tatuagens fazem as pessoas nos tratarem como criminosos. Outro dia saí para encontrar uma garota e meu celular parou de funcionar. Perguntei a algumas pessoas se eu poderia pegar o telefone emprestado para ligar para minha mãe e todos disseram que não tinham crédito. Acharam que eu ia roubar seus telefone ou algo parecido.

O mesmo com a polis (polícia). Eles veem minhas tatuagens e pensam que sou bandido. Eles sempre me param – uma vez me levaram para uma delegacia, outra para a promotoria. Uma vez acharam um pouco de maconha no meu bolso e escreveram no relatório que eu tinha uns 10 ou 15 pacotes comigo. Passei três dias lá por isso. Outras vezes, eles simplesmente me põem no camburão e depois me soltam.

Eu me preocupo com meus pais quando isso acontece. É uma porcaria ser preso sem saber de nada, sem que sua família saiba o que aconteceu com você. E a comida que a polícia te dá é horrível. Na última vez que estive lá, eles me deram um pedaço de pão duro com maionese. Não contei nada aos guardas, mas não comi. Outras pessoas comeram. Eu não.

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Não sei explicar como me sinto hoje em dia. Eu realmente não sei como colocar em palavras. Levei um tiro no rosto quando meu irmão foi morto e acabei no hospital por 12 dias. Estou bem agora — mas sinto dor nos dentes. Minhas gengivas doem, tudo dói. Tem muita coisa que não posso mais fazer. Tenho uma placa na mandíbula, então posso me machucar de novo se tomar um soco ou se eu cair. Aí teria que pagar por mais tratamento. Minha primeira cirurgia foi muito cara e meus pais ainda não terminaram de pagar tudo. Eles tiveram que pegar um empréstimo para conseguir um empréstimo com o banco. Mas eles fazem o que podem.

Fora isso, graças a Deus ainda estou aqui. Quase não saio mais de casa desde o acidente. Fico em casa e assisto TV. Em algum momento vou encontrar trabalho em uma maquiladora e, quando isso acontecer, posso começar a construir minha própria casa. Temos muita terra e vou colocar minha casa bem ao lado da da minha mãe. Já comecei a colecionar tijolos para construir alguns cômodos e morar lá.


Esta história faz parte de uma série de depoimentos de crianças e mães que vivem em Ciudad Juárez, na fronteira EUA-México. Todas os menores foram pegas cruzando para os EUA, seja para perseguir aspirações pessoais ou para contrabandear pessoas, e agora estão recebendo serviços de justiça restaurativa da ONG Derechos Humanos Integrales en Acción (DHIA). Os relatos foram coletados juntamente com os defensores do DHIA e foram editados para maior clareza. A ilustração é uma representação fictícia produzida por Carys Boughton (Todos os direitos reservados). O nome do narrador também foi alterado.

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