Os primeiros dias de 2023 significaram, para os brasileiros, uma mistura de sentimentos, emoções e desafios reais e simbólicos. Os ataques golpistas às sedes do governo, do Congresso Nacional e da Suprema Corte do país, no dia 8 de janeiro, consumaram uma tragédia anunciada. Não foram poucos os alertas e análises, inclusive meus aqui no openDemocracy, sobre a possibilidade concreta de o Brasil ter sua própria versão daquelas cenas vistas logo após as eleições americanas, quando eleitores de Donald Trump invadiram o Capitólio para deslegitimar os resultados.
Como nos EUA de 2020, o Brasil de 2023 também assistiu a milhares de pessoas defendendo os interesses do presidente derrotado, tentando deslegitimar as eleições, o presidente eleito e as principais instituições democráticas do país, incluindo a triste depredação do patrimônio público. Como os leitores do open Democracy sabem, atos violentos, tentativas de rupturas institucionais e ataques “por dentro” desse tipo são algumas das tendências do perigoso extremismo global. Impactam ou são impactados pela agudização do populismo, da polarização violenta e da pós-verdade para conquistar ou manter o poder político por meio da violência nas ruas e da deterioração das instituições democráticas.
Houve, porém, um agravante significativo no Brasil em relação à experiência americana: todos os indícios até aqui levam ao envolvimento das forças de segurança, inclusive das Forças Armadas brasileiras. Desde o anúncio do resultado das eleições, na noite de 30 de outubro de 2022, manifestantes montaram acampamentos em frente a quartéis-generais do Exército, pedindo intervenção militar, com baixo empenho concreto para desmobilizá-los. E, nos ataques do dia 8 de janeiro, houve suspeita de falhas nos serviços de inteligência e possível colaboração da polícia militar do Distrito Federal.