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Violência armada volta à Colômbia – e o Estado continua ausente

O ano começou com sangue em Arauca, departamento que viveu guerra durante anos e continua abandonado pelo governo

Juanita Rico
13 Janeiro 2022, 12.00
Entre 2004 e 2010, Arauca foi palco de guerra entre o ELN e as ex-FARC que deixou pelo menos 500 civis mortos
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Embora os números não sejam definitivos, os confrontos entre o Exército de Libertação Nacional (ELN) e grupo dissidente das ex-Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), em 2 de janeiro, deixaram um rastro de sangue e milhares de deslocados em Arauca, departamento na fronteira com a Venezuela. Em 6 de janeiro, 27 mortes haviam sido confirmadas, incluindo civis.

As notícias não surgiram através da mídia tradicional, mas através das redes sociais. Desde 1º de janeiro habitantes locais vinham usando o Twitter para pedir ao Estado, especialmente ao presidente Iván Duque, que agisse sobre a situação em Arauca, particularmente a dos civis que tiveram que deixar suas casas para fugir do fogo cruzado.

Departamento de Arauca
Departamento de Arauca
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Em 2 de janeiro, dia em que os combates se intensificaram, a Frente de Guerra Oriental do ELN divulgou um comunicado no qual acusava a 10ª Frente de dissidentes das FARC, liderada por um ex-guerrilheiro desmobilizado de codinome Arturo Paz, de promover o tráfico de drogas na região. "Nos encontramos na necessidade de defender os territórios", insistem em seu comunicado.

Os residentes pediam ao governo que disponibilizasse abrigos para aqueles que foram deslocados devido ao fogo cruzado. A resposta do governo colombiano, no entanto, foi diferente. Duque limitou-se a enviar dois batalhões do Exército para a área. Ele também garantiu que reforçaria a equipe de inteligência e contrainteligência militar, bem como as ações da Força Aérea com drones e mais horas de voo sobre os pontos de conflito. A Procuradoria-Geral da Nação, por sua vez, anunciou que formou um grupo de investigadores e promotores para "fortalecer o trabalho" do governo de Arauca e "apoiar a institucionalidade na região".

Além de resposta insuficiente, Duque também implicou o governo de Nicolás Maduro no problema. "Naquela área [onde ocorreram os confrontos] há grupos que operam com o apoio do regime ditatorial, cometem crimes e voltam à sua zona de conforto na Venezuela", afirmou.

O Estado colombiano não mantém presença militar em Arauca, apesar de ser um território marcado por conflitos armados. Entre 2004 e 2010, o ELN e as FARC iniciaram uma guerra no departamento quando o primeiro decidiu erradicar as plantações de coca, ação a que as FARC se opuseram.

A guerra entre os dois grupos armados deixou 500 civis mortos e pelo menos 50 mil deslocados. Em 2010, as duas facções guerrilheiras concordaram em dividir o território. No entanto, a desmobilização das FARC após a assinatura do Acordo de Paz de 2016 criou um vácuo no território que, em vez de ser ocupado pelo Estado colombiano, ficou à mercê de outras facções.

Hoje, os araucanos temem o retorno desses confrontos armados. "Nosso medo é que aconteça novamente o que aconteceu há 13 anos, quando camponeses foram massacrados em uma guerra com a qual nada tinham a ver", afirmou Mayerly Briceño, líder estudantil de Tame, Arauca.

A guerra entre os dois grupos armados deixou 500 civis mortos e pelo menos 50 mil deslocados. Hoje, os araucanos temem o retorno desses confrontos

Briceño também acusa o governo de manter interesses petroleiros na região. Arauca é um dos departamentos com maior atividade petrolífera do país, com mais de cinco blocos ativos, de acordo com a Agência Nacional de Hidrocarbonetos (ANH). Ali, como em outros territórios, o Estado colombiano defende interesses das empresas privadas, mas deixa a população civil à sua sorte.

Para Briceño e outros líderes sociais, a sangrenta disputa que eclodiu este mês é uma reedição daquela velha luta pelo controle do território. Arauca é um departamento que vive um dos conflitos mais profundos e antigos da Colômbia, em que guerrilheiros criaram raízes e praticamente governaram o departamento nos últimos 40 anos. Militarizar a área não é suficiente para resolver o conflito.

Briceño acredita que a solução está na implementação o Acordo de Paz, que contempla ações específicas sobre cultivos ilícitos e gestão de antigos territórios das FARC. No entanto, apenas 28% do acordo foi implementado em seus cinco anos, de acordo com o último relatório do Instituto Kroc.

Em 3 de janeiro, diante da incapacidade do governo e da violência dos grupos armados, a população de Arauca saiu às ruas em manifestação pacífica para pedir presença do Estado em seu território. Em resposta, a Ouvidoria e outras organizações de direitos humanos prometeram ir a Arauca executar censos e conversar com as comunidades que registraram as diferentes ameaças.

Segundo as comunidades locais, os confrontos continuam ocorrendo em todo o departamento de forma coordenada, principalmente nas áreas rurais de Tame, Saravena, Arauquita e Fortul. Também alegam que enquanto alguns dos 27 mortos confirmados foram vítimas de confrontos entre dissidentes das FARC e o ELN, outros foram assassinatos seletivos. Todos os corpos foram encontradas em áreas rurais, confirmando que camponeses são vítimas diretas dos confrontos em território colombiano.

Embora Duque tenha afirmado não haver mortes de civis, o promotor Francisco Barbosa relata que camponeses obrigados a deixar suas residências foram baleados à queima-roupa. Barbosa também confirmou haver quatro venezuelanos entre as vítimas.

Este é um novo capítulo da violência armada nas áreas rurais da Colômbia, que atinge principalmente os camponeses que continuarão denunciando o Estado por sua ausência, incumprimento do Acordo de Paz, falta de planos de desenvolvimento e investimento social que fazem com que Arauca, mais uma vez, seja cenário de guerra entre facções guerrilheiras que lutam pelo controle do território e do lucrativo negócio de drogas.

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