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Mortos no México, presos na Nicarágua: violência contra jornalistas aumenta

Em janeiro, 4 jornalistas foram mortos no México, e o regime nicaraguense condenou profissional a 9 anos de prisão em fevereiro

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Francesc Badia i Dalmases Juanita Rico
22 Fevereiro 2022, 12.00
'Matam jornalistas, mas não a verdade'
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REUTERS / Alamy Stock Photo

Em 10 de janeiro, José Luis Gamboa foi esfaqueado no porto de Veracruz. Em 17 de janeiro, o fotojornalista Margarito Martínez foi morto a tiros em Tijuana. Em 23 de janeiro, Lourdes Maldonado foi assassinada em Tijuana. Em 31 de janeiro, Roberto Toledo, cinegrafista, comunicador e analista do Monitor Michoacán, foi morto a tiros.

Segundo a Repórteres Sem Fronteiras (RSF), sete jornalistas foram mortos no México em 2021 e 47 nos últimos cinco anos, fazendo do país o mais mortífero para jornalistas do mundo.

Dos 140 assassinatos desde 1990, 95% permaneceram impunes. Um exemplo é o caso de Margarito Martínez; a polícia local atribuiu sua morte a uma briga de bairro, versão que o Ministério Público negou.

Questionado sobre esses últimos assassinatos, o presidente Andrés Manuel López Obrador (AMLO) manteve seu habitual discurso de confronto com a imprensa, uma das características mais preocupantes de sua presidência. AMLO afirma que não há impunidade pelo assassinato de jornalistas no México, além de caracterizar as denúncias como uma técnica que "meus adversários estão usando para atacar meu governo".

Como consequência dos constantes assassinatos de jornalistas, poucos se atrevem a investigar a fundo os problemas sociais no México. O caso de Lourdes Maldonado teve um impacto especial na sociedade mexicana, porque aconteceu depois de ela haver participado de uma coletiva de imprensa de AMLO na qual pediu apoio diante de ameaças.

Embora o México não esteja oficialmente em guerra, seu índice de criminalidade é equivalente ao de um conflito militar. A cada dia, cerca de 100 pessoas morrem, mais de dez mulheres são assassinadas e dois jornalistas são agredidos.

A resposta aos assassinatos foi poderosa: durante três dias após o assassinato de Lourdes, manifestações por justiça eclodiram em frente ao Ministério do Interior. Da mesma forma, outras concentrações surgiram em diferentes estados para pedir respeito à liberdade de imprensa.

O fotojornalista de Veracruz Félix Marquez, em conversa com o El País, disse que as manifestações são "um apelo urgente às instituições e à sociedade para que voltem os olhos para esses assassinatos ... porque geralmente são os jornalistas locais que enfrentam seus algozes: o próprio Estado, os empresários poderosos, os traficantes de drogas. Eles matam por qualquer coisa hoje em dia. E nada acontece, como se a vida de um jornalista não valesse absolutamente nada."

As relações de AMLO com a mídia são tensas desde que assumiu o cargo e atingiram seus auge ​​em 2021, quando estreou em seu programa oficial matutino um quadro chamado "Quem é quem nas mentiras da semana?" para atacar a mídia. Nele, AMLO argumenta que as mentiras da mídia não são apenas um problema para o México, mas uma praga global.

AMLO discursando

As relações de AMLO com a mídia são tensas desde que assumiu o cargo

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Maria Fregoso/Alamy Stock Photo

Os assassinatos sistemáticos de jornalistas no México e a impunidade com que foram tratados são devastadores para a viabilidade da democracia. Em quase todos os casos, os jornalistas assassinatos informaram as autoridades sobre as ameaças que recebiam. Em abril de 2021,Lourdes Maldonado informou que seu carro havia sido baleado, mas o ataque não foi investigação. Apesar da alta taxa de homicídios, o México não tem mecanismos de proteção a jornalistas.

O governo mexicano deve entender que não se trata de criar soluções pontuais, mas que este escândalo deve ser tratado como uma questão de Estado. Não se trata de organizar promotores especializados para investigar os assassinatos, mas de compreender as razões pelas quais os jornalistas não podem exercer livremente seu trabalho no México. Para isso, os órgãos de justiça devem participar das investigações, ajudar a esclarecer cada caso e acabar com a impunidade, que é o principal incentivo para continuar assassinando jornalistas no México.

Nicarágua, prisão e exílio

Em 8 de fevereiro, o organização Jornalistas e Comunicadores Independentes da Nicarágua (PCIN, na sua sigla em espanhol) qualificou como "arbitrário" o julgamento do jornalista esportivo Miguel Mendoza, preso por criticar em suas redes sociais o presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, em junho de 2021, durante onda de perseguição de candidatos da oposição e críticos do sandinismo diante das eleições em que Ortega foi reeleito. Acusado de "realizar atos que minam a independência da soberania e a autodeterminação", Mendoza foi considerado culpado de atacar o regime e divulgar informações falsas em 9 de fevereiro. Em 16 de fevereiro, o jornalista foi condenado a absurdos nove anos de prisão.

Em 2018, Mendoza também denunciou os ataques contra manifestantes nos atos antigoverno que deixaram 355 mortos. Junto a outros 177 presos políticos, Mendoza descreveu abuso e tortura na prisão. A audiência de Mendoza faz parte de uma série de julgamentos que começaram este mês na Nicarágua, nos quais oito dissidentes já foram considerados culpados, incluindo a ex-guerrilheira sandinista Dora María Tellez, historiadora e figura-chave da revolução. Conhecida como Comandante 2, ela foi uma das líderes da operação político-militar da FSLN de agosto de 1978 que expôs a fragilidade do regime e levou milhares de jovens a aderirem ao movimento sandinista.

Miguel Mendoza posa em camisa azul
Miguel Mendoza foi condenado a nove anos de prisão por criticar o governo Ortega
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Twitter

Mas esses não são casos isolados. Preso em 20 de junho, Miguel Mora é outro jornalista atualmente atrás das grades, marcando a segunda vez que é preso como crítico do regime de Ortega. No segundo semestre de 2021, também foram presos o comentarista político Jaime Arellano, o diretor de mídia Juan Lorenzo Holmann e quatro trabalhadores da Fundação Violeta Barrios: Cristiana Chamorro, Walter Gómez, Marcos Fletes e Pedro Vasquez, segundo o Coletivo de Direitos Humanos Nicarágua Nunca Mais.

Além dos profissionais presos, pelo menos 120 jornalistas deixaram o país desde as violentas repressões das manifestações de 2018. Segundo o coletivo, “desde 2018, a imprensa independente é alvo de ataques permanentes da polícia, do Ministério Público, do Judiciário e das estruturas partidárias da Frente Sandinista (FSLN). Há um padrão de detenções ilegais e arbitrárias contra jornalistas e funcionários da mídia.”

A situação na Nicarágua mostra o que acontece quando regimes autoritários se entrincheiram no poder e procuram silenciar qualquer dissidência.

A deriva autocrática de Ortega parece imparável. Não é por acaso que sua posse, em 10 de janeiro, contou com a presença de apenas três chefes de Estado – Nicolás Maduro (Venezuela), Miguel Díaz-Canel (Cuba) e Juan Orlando Hernández, presidente cessante de Honduras, além de representantes da China e da Rússia, países conhecidos por repressão da imprensa.

Os casos do México e da Nicarágua mostram que o assédio à imprensa livre e ao jornalismo independente está desenfreado. Apesar das contínuas denúncias de perseguição, assédio e assassinato em um clima de impunidade e abuso, não parece que esses dois governos estejam à altura da tarefa de garantir, não apenas o direito fundamental à informação, mas também o direito humano à vida.

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