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Colômbia aposta na esquerda em eleições históricas

Em 19 de junho, Gustavo Petro se converteu no primeiro esquerdista a conquistar a presidência do país

democracia Abierta
24 Junho 2022, 12.00
Gustavo Petro venceu a extrema-direita e destronou o uribismo, que dominou a política colombiana no século 21
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Chepa Beltran/VWPics/Alamy Stock Photo

Após seis meses de incerteza, os colombianos expressaram sua preferência nas urnas. Em 19 de junho, Gustavo Petro, economista, ex-guerrilheiro e ex-senador que concorreu pelo Pacto Histórico, derrotou o engenheiro Rodolfo Hernandéz com11,2 milhões de votos, 800 mil mais do que seu oponente. Assim, Petro venceu com 50,4% dos votos contra 47,2% de Hernández.

Dessa forma, a Colômbia elegeu o primeiro presidente de esquerda da sua história moderna e a primeira mulher negra vice-presidente, Francia Márquez. Em 7 de agosto, ambos assumirão seus cargos à frente de um país governado por líderes de direita há mais de 60 anos.

O segundo turno das eleições viu um aumento de mais de dois pontos em relação ao primeiro turno, realizado em 29 de maio. Mais de22,5 milhões de colombianos compareceram às urnas, a maior participação das últimas três décadas na Colômbia, onde o voto não é obrigatório.

Assim como no primeiro turno, Petro venceu na capital, no Caribe e no Pacífico, terra natal de Francia Márquez e das comunidades mais afetadas pelo conflito armado que assola a Colômbia desde a década de 60. Isso também explica por que teve um apoio esmagador de indígenas, afros e mulheres.

A vitória de Petro-Márquez marca uma mudança no foco político da Colômbia, que pela primeira vez terá a oportunidade de priorizar as políticas sociais. Ao longo de sua campanha, Petro e Márquez fizeram propostas ambiciosas que levantou dúvidas sobre sua viabilidade de execução em apenas quatro anos, especialmente devido à desigualdade econômica e social exacerbada pela pandemia.

Suas promessas incluem promover uma mudança no modelo econômico pautado na produção agrícola e na reforma agrária; implementar o Acordo de Paz; enfrentar a desigualdade nas zonas rurais; abordar as questões de propriedade da terra produtiva; aumentar a participação política das mulheres; criar um Sistema Nacional de Cuidado; proteger ecossistemas e recursos naturais (especialmente a água); combater as mudanças climáticas; implementar uma transição energética, uma reforma de segurança e uma reforma tributária; e acabar com o serviço militar obrigatório.

Além de implementar seu ambicioso plano de governo, Petro e Márquez terão de enfrentar a polarização na Colômbia. Quase metade da população colombiana votou em Hernández, um político autointitulado anti-establishment e outsider conhecido por sua agressividade e recusa de atender debates. Essa parcela da população continua a associar Petro a grupos guerrilheiros e a "ameaças comunistas".

Mudança histórica

O futuro do governo Petro pode ser uma incógnita, mas o que está claro é que sua vitória é histórica. Petro venceu em um país que sempre foi governado pela direita e onde a ideia de um ex-militante na Casa de Nariño era simplesmente inconcebível há apenas alguns anos.

Na figura de Petro, a Colômbia testemunhou pela primeira uma campanha eleitoral que focou nas pessoas mais vulneráveis do país

Petro passou 12 anos de sua juventude no M-19, um movimento guerrilheiro de esquerda que adotou como nome o pseudônimo de Comandante Aureliano, um dos generais revolucionários de "Cem Anos de Solidão", de Gabriel García Márquez.

Depois de deixar o grupo, Petro foi eleito senador e prefeito de Bogotá. Antes de ganhar as eleições de 2022, ele já havia concorrido duas vezes. Aos 62 anos, alcançou seu objetivo. "Hoje começou a mudança para a Colômbia", afirmou, em seu discurso de vitória.

Na figura de Petro, a Colômbia testemunhou pela primeira uma campanha eleitoral que focou nas pessoas mais vulneráveis do país, incluindo moradores das favelas das grandes cidades colombianas e as comunidades negras e indígenas.

Esse foco foi especialmente visível através de sua vice-presidente, que começou sua carreira política como líder social e ambiental. Em 2018, Márquez ganhou o Goldman Environmental Prize, considerado o Prêmio Nobel da luta ambiental. "Após 214 anos, conseguimos um governo do povo, um governo popular, de pessoas com as mãos calejadas, um governo de pessoas comuns, dos ninguéns da Colômbia", disse Márquez em seu discurso.

Em seu discurso, Petro também deu a palavra a Jenny Medina, mãe deDylan Cruz, jovem supostamente assassinado em 2019 pela polícia de choque de Bogotá, em meio a protestos contra o governo de Iván Duque. Por esse enfoque nos "ninguéns", muitos colombianos veem no novo presidente e nos que o cercam a esperança de um país menos desigual.

Um país fragmentado, mas não perdido

Apesar da atmosfera de esperança que surgiu depois das eleições, Petro tem o grande desafio de voltar a unir os colombianos. Diante desse obstáculo, Petro e sua equipe terão de unir forças com aliados e adversários para tirar o país da crise social e econômica deixada por Duque. A pobreza na Colômbia, que aumentou nos últimos quatro anos, e o cansaço geracional de promessas quebradas colocam ainda mais pressão sobre o novo presidente.

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A presença de Francia Márquez nas eleições traz pautas negras e feministas, uma mudança radical na política do país

Para não desiludir as expectativas, Petro deve assegurar, antes de mais nada, sua governabilidade. Apesar do fracasso dos aliados do ex-presidente Álvaro Uribe nos últimos anos, os partidos tradicionais continuam a ter peso no Congresso. Petro terá de mostrar sua capacidade política para conseguir contornar essa oposição. Para tal, o presidente eleito deverá aproximar-se desses parlamentares para forjar acordos que lhe permitam concretizar suas reformas, uma tarefa que requer negociações difíceis e muita humildade.

Petro também tem o grande desafio de recolocar a economia nos trilhos. Seu programa econômico tem sido amplamente criticado por vários setores. Para o presidente da Associação Nacional de Empresários Colombianos (ANDI) Bruce Mac Master, a proposta fiscal do Petro "não é viável". Na opinião dele, a proposta de reforma energética afetarias os colombianos através de taxas de câmbio, balança comercial, inflação, pobreza e desemprego.

Desde que perdeu as eleições de 2018, Petra tenta minimizar os temores de seus adversários. Em seu discurso de vitória, ele chegou a argumentar que ele e sua equipe irão “desenvolver o capitalismo na Colômbia”. De fato, Petro deve tomar medidas para evitar que os investidores estrangeiros e empresários colombianos não retirem seu capital do país, a fim de promover a recuperação econômica do país.

Além da desconfiança das elites financeiras, Petro enfrentará três problemas estruturais: a maior inflação da Colômbia nos últimos 20 anos, a maior taxa de desemprego em uma década e o aumento da pobreza devido às reformas econômicas neoliberais de longa data.

Petro também deve encontrar obstáculos em sua política externa. Durante sua campanha, o presidente eleito afirmou sua intenção de reestabelecer relações com a Venezuela, o que pode sua relação com os Estados Unidos, antigo aliado da Colômbia.

Mas com a atual guinada à esquerda da América Latina, a Colômbia tem amplas oportunidades de forjar alianças fortes. Assim, a eleição de Petro abre mais portas do que fecha. No entanto, suas ações como presidente devem ser escrutinadas, pois carrega não apenas as responsabilidades normais de um presidente, mas também a esperança de milhões de pessoas historicamente ignoradas e que veem nele e em Márquez a resposta para deficiências atávicas.

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