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A Covid-19 exacerbou a insatisfação social na América Latina

A região foi palco de algumas das maiores manifestações em 2020, quando a pandemia escancarou a desigualdade

democracia Abierta
24 Setembro 2021, 12.00
'Pela vida e pela paz, guerra nunca mais para os jovens'
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No início de setembro de 2021, a CIVICUS, organização que monitora o que acontece com a sociedade civil no mundo, constatou que, apesar da pandemia, os protestos continuaram ocorrendo em todas as regiões do mundo.

As forças motrizes das manifestações são sido diversas, incluindo os lockdowns relacionado à Covid-19, as respostas do Estado, percebidas em alguns casos como autoritárias, e as dificuldades econômicas que as medidas sanitárias acarretaram, principalmente para os mais vulneráveis e aqueles que dependem da economia informal.

De acordo com dados coletados pela CIVICUS Monitor, entre fevereiro de 2020 e janeiro de 2021, manifestações relacionadas à COVID-19 aconteceram em 86 países, onde também foram organizados protestos sobre justiça racial, direitos das mulheres e combate à corrupção.

Em mais de um quarto de todos os países, essas manifestações expuseram as profundas desigualdades e serviram para exigir medidas governamentais para aliviar os fardos econômicos dos lockdowns.

A América Latina foi, sem dúvida, um dos grandes centros de manifestações do mundo. No início de outubro de 2019, o Chile viveu uma séries de protestos, evento conhecido como revolta social, que começou exigindo justiça e acabou com o fim da Constituição de Pinochet, desencadeando um processo democrático inovador atualmente em andamento.

As manifestações expuseram as profundas desigualdades

No Peru, a fragilidade governamental manchada pela corrupção também levou a manifestações que derrubaram o presidente interino.

Quase ao mesmo tempo, na Colômbia, a possibilidade de uma reforma tributária foi o catalisador de uma profunda revolta social a que se somaram os efeitos da pandemia, fatores que fizeram com que seus cidadãos saíssem às ruas em massa por dois meses seguidos, encarando o vírus e as autoridades, que reagiram com violência, alimentando a indignação do público.

O que o relatório da CIVICUS deixa claro é que a pandemia expôs e exacerbou as profundas desigualdades que se perpetuaram em muitas partes do mundo.

Defensores ambientais continuam morrendo

Publicado quase simultaneamente ao da CIVICUS, o último relatório da Global Witness mostrou que, em 2020, houve 227 assassinatos de líderes ambientais, dos quais 65 aconteceram na Colômbia. Segundo a organização, um dos principais motivos dessa violência é a falta de implementação do Acordo de Paz, já que em muitas regiões, onde o Estado continua perpetuando sua ausência, grupos paramilitares e gangues criminosas expandiram sua influência.

O relatório observa que dos 65 ataques em território colombiano, um terço visou indígenas e negros e quase metade pequenos agricultores. Também aponta que 71% dos líderes assassinados trabalhavam em defesa das florestas.

Os defensores mais assassinados no mundo são aqueles que trabalham para amenizar a crise ambiental

Diante desse fato, a Global Witness afirma que a proteção das florestas é fundamental devido à atual situação global: a crise climática está chegando a um ponto de não retorno e são necessárias ações drásticas e urgentes. As florestas são a tecnologia mais poderosa do planeta para absorver carbono. Não é por acaso que os defensores mais assassinados no mundo são aqueles que trabalham para amenizar a crise ambiental. Há uma enorme pressão para converter as terras arborizadas em terras agrícolas e pecuárias, assim como para extrair madeira, minérios e outros recursos naturais.

Os defensores das florestas não só preservam o ecossistema e a biodiversidade, mas também pressionam por uma legislação que proteja os territórios que protegem a todos nós da emergência climática.

Os números podem ser ainda piores. Para elaborar seus relatórios, a Global Witness usa fontes públicas, que são de difícil acesso em muitos casos e em outros incertos, como na Colômbia, onde as causas dos assassinatos muitas vezes se perdem em meio a suas guerras constantes.

Esses dois relatórios mostram que os governos não estão fazendo o seu trabalho, nem nas questões sociais nem nas ambientais, enquanto as causas da desigualdade, da corrupção e das causas subjacentes da violência não são abordadas com clareza, determinação e responsabilidade esperadas pela democracia.

O descontentamento diante da impunidade e do abuso de poder continuam a ser o motor do protesto social, assim como o combustível da violência que o reprime, principalmente na região latino-americana.

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