democraciaAbierta: Opinion

Existe uma ‘terceira via’ para o Brasil?

Enquanto Bolsonaro e Lula se preparam para as eleições de 2022, alguns brasileiros exigem uma alternativa. Mas quais são os riscos?

Katerina Hatzikidi
3 Dezembro 2021, 12.00
Bolsonaro e Lula lideram as pesquisas das eleições do ano que vem
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REUTERS/Alamy Stock Photo

Falta menos de um ano para que os brasileiros deem seu veredicto sobre seu presidente, Jair Bolsonaro.

Com a eleição presidencial de outubro do ano que vem se aproximando, Bolsonaro, cuja popularidade despencou em meio a sua gestão da crise da Covid-19, deverá enfrentar um duro desafio nas urnas. A principal ameaça ao mandatário de extrema-direita deverá vir de Luiz Inácio Lula da Silva.

Lula, que governou o Brasil entre 2003 e 2010, foi condenado a mais de nove anos de prisão por corrupção em 2017. Essa condenação foi anulada pelo ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), em março de 2021, abrindo caminho para que o candidato de centro-esquerda possa concorrer nas eleições do ano que vem.

A natureza divisionista de ambos os candidatos não passou despercebida. De fato, a mídia brasileira tem caracterizado a disputa entre Bolsonaro e Lula de "polarização". O apoio a um ou a outro parece carregar um fardo emocional, uma preferência que empurra o país para os extremos do espectro político. Em vez disso, muitos brasileiros clamam por uma solução no meio do caminho, a chamada terceira via, simbolizado por um candidato moderado.

Afinal, os dois candidatos terão de lidar com bases eleitorais insatisfeitas. Apesar da anulação da sentença de Lula após longas batalhas judiciais, o ex-presidente é visto como ladrão por muitos, especialmente entre a base de Bolsonaro. Esse é um dos motivos pelos quais muitos juram nunca mais votar em Lula

Quanto a Bolsonaro, muitas vezes é rotulado de maluco, até mesmo por alguns de seus próprios partidários. Conversas informais com eleitores de Bolsonaro antes das manifestações pró-governo, em 7 de setembro, no geral mostraram isso. Aqueles que se disseram decepcionados com Bolsonaro referiram-se a ele como maluco, especialmente no contexto do manejo da Covid-19 e da campanha de vacinação. Eles viram a gestão de Bolsonaro da pandemia como uma governança cruel, indiferente e amplamente incompetente. Curiosamente, no entanto, mesmo os eleitores desiludidos de Bolsonaro pareciam não querer associá-lo à corrupção, apesar de que Bolsonaro e membros de sua família enfrentam várias investigações de corrupção e lavagem de dinheiro.

Algum dos possíveis candidatos da terceira via realmente ofereceria uma alternativa distinta a Bolsonaro, seu antigo aliado?

Dito isso, uma pesquisa Datafolha recente mostra que a aprovação de Bolsonaro despencou para níveis recordes. Com mais da metade dos entrevistados classificando seu governo como "ruim" ou "péssimo", Bolsonaro parece politicamente enfraquecido e mais dependente do que nunca dos setores mais "fiéis" de seu eleitorado. Mas mesmo esse suporte não parece ser incondicional. A pesquisa Datafolha também mostra que apenas 22% dos entrevistados avaliaram o presidente e seu governo como "bom" ou "ótimo", uma queda acentuada em relação aos 30% de aprovação em dezembro de 2020. Durante grande parte de seu mandato, os índices de aprovação de Bolsonaro giraram em torno de 30%. Mas para onde vão os eleitores desiludidos? A resposta é complicada.

Parece que a impopularidade de Bolsonaro está causando o aumento das intenções de voto em Lula nas pesquisas. Mas nem sempre o eleitor desiludido migra para outro candidato, muito menos para Lula. Um estudo de junho de 2020, realizado pelas cientistas políticas Camila Rocha e Esther Solano, observou que os eleitores “arrependidos” – que votaram em Bolsonaro em 2018, mas agora se sentem decepcionados – admitem que podem apoiar sua reeleição, principalmente porque eles não veem alternativa política.

Mas os eleitores “arrependidos” parecem enfrentar um dilema. Muitos dizem que vão ficar com Bolsonaro “caso seja necessário”, ou seja, se Bolsonaro enfrentar Lula no segundo turno – a menos que uma terceira opção com uma chance confiável de sucesso surja. Alguns desses eleitores, no entanto, confessam estar inseguros sobre qualquer um dos candidatos. Afinal, Bolsonaro é “louco” e Lula é “ladrão”.

Quem pode ser uma terceira via viável para os eleitores insatisfeitos do Brasil?

Cinco dias depois dos protestos pró-governo de 7 de setembro, grupos de direita e centro-direita organizaram protestos contra o governo. Alguns deles eram ex-aliados de Bolsonaro em busca de outro candidato aceitável para apoiar.

Os grupos concordaram em poupar Lula e atacar apenas o governo – um acordo que permitiu que alguns grupos de esquerda se unissem aos protestos. Apesar disso, faixas de “Nem Lula, nem Bolsonaro” e um enorme boneco inflável – de Lula e Bolsonaro unidos pela cintura – marcaram presença. O boneco de Lula usava roupa de presidiário e Bolsonaro uma camisa de força. Potenciais candidatos à presidência, como João Doria, governador de São Paulo e ex-aliado de Bolsonaro, e Ciro Gomes, de centro-esquerda, se dirigiram às multidões em um esforço conjunto para criar impulso para o impeachment de Bolsonaro.

Os protestos anti-governo tiveram baixa adesão, mas um levantamento do Atlas Político mostra que um número crescente de eleitores decepcionados espera uma terceira via em 2022. Grande parte da mídia também vê um candidato alternativo como a única solução para a polarização atual.

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Com suas condenações por corrupção anuladas, o ex-presidente mostrou que sua carreira política não ficou no passado.

O retorno político do ex-juiz da Lava Jato e ex-ministro da Justiça de Bolsonaro, Sergio Moro, foi calorosamente recebido por defensores da terceira via. Em abril de 2020, Moro renunciou ao cargo de ministro logo após acusar Bolsonaro de tentar interferir no trabalho da Polícia Federal e obter acesso à informação confidencial ao nomear um confidente como diretor-geral. No início de novembro, Moro oficialmente entrou na arena política ao se filiar ao Podemos, um partido de direita que votou principalmente a favor das propostas legislativas do governo Bolsonaro. Dias depois, Moro confirmou sua intenção de concorrer à presidência em entrevista a Pedro Bial.

Parece relevante, então, examinar como a terceira via está politicamente situada. Quase uma dúzia de pessoas está disputando a eleição. Alguns dos prováveis porta-estandartes da terceira via, incluindo Moro, Doria e o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, são ex-aliados de Bolsonaro. Eles são vistos por partes da sociedade e pela imprensa como representantes de uma direita política moderada que está disposta a negociar com o centro e até mesmo com a centro-esquerda. É por isso que os entusiastas da terceira via acreditam que eles simbolizam esperança e mudança para o país. Mas vale a pena perguntar quão alternativo ou mais moderado esse candidato de terceira via realmente seria. Algum desses homens realmente ofereceria uma alternativa distinta a Bolsonaro, seu antigo aliado?

Por enquanto, é seguro dizer que nem tudo está perdido para Bolsonaro, que ainda pode recuperar alguns de seus eleitores desencantados. Lula não está necessariamente se beneficiando da impopularidade de Bolsonaro, porque parte do eleitorado rejeita veementemente os dois candidatos. Caso uma terceira via não ganhe força, os eleitores podem ter que escolher aquilo que consideram o menor dos males.

Também é importante pontuar que a grande mídia brasileira está fracassando em mostrar a natureza assimétrica da dinâmica polarizadora dos dois principais candidatos atuais. Em contraste com o discurso geralmente incendiário de Bolsonaro, Lula fala de unidade nacional e política conciliatória. Descrever Lula como “populista”, como costuma fazer a mídia, é apenas mais uma forma de desacreditá-lo junto com seu apelo popular, já que o termo tem conotações pejorativas no linguajar cotidiano do país. Também cria uma falsa equivalência entre um candidato moderado de esquerda, com um partido que se inclinou cada vez mais para o centro durante seu governo, e um presidente populista de extrema-direita. A criação dessa falsa equivalência e, portanto, de uma suposta polarização entre dois lados desigualmente lançados nessa dinâmica, acaba beneficiando o lado extremista – que se alimenta do cenário político polarizado para se sustentar.

Muita coisa ainda pode mudar no horizonte de (im)possibilidades políticas do Brasil até as eleições do próximo ano. Resta saber se Lula continuará mantendo a liderança contra o Bolsonaro ou se surgirá um terceiro candidato. Na mais recente pesquisa do Atlas Político, Moro ganhou o terceiro lugar nas intenções de voto dos brasileiros, atrás de Lula (que ampliou sua vantagem) e Bolsonaro (que recuou mais ainda). O certo é que as apostas nunca foram tão altas para os brasileiros, depois de uma pandemia e diante da devastação ambiental, do aprofundamento da crise econômica, da insegurança alimentar e do aumento do desemprego.

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