democraciaAbierta: Analysis

Como a guerra na Ucrânia intensificou a instabilidade política no Peru

A inflação dos combustíveis, da cesta básica e dos fertilizantes fez com que os peruanos saíssem novamente a protestar

Juanita Rico
25 Abril 2022, 12.00
ZUMA Press/Alamy Stock Photo

No último mês, o presidente peruano Pedro Castillo enfrentou o que provavelmente foi o período mais difícil de seu mandato. Desde o início de abril, Peru vive uma onda de manifestações, greves e bloqueios de estradas, que começaram com ações de grupos de caminhoneiros devido ao aumento dos preços dos combustíveis e evoluíram para movimentos mais generalizados.

A este descontentamento se somou o dos trabalhadores agrícolas, que foram impiedosamente atingidos pelo aumento dos preços dos fertilizantes. Além disso, as exportações agrícolas do país, incluindo mirtilos, abacates e uvas, estão sendo afetadas por interrupções no fornecimento.

O que começou como uma greve de caminhoneiros terminou em protestos massivos, com confrontos que deixaram pelo menos seis pessoas mortas. Castillo tentou conter as manifestações com um toque de recolher, que teve de suspender um dia depois de impô-lo.

Castillo, que acabou de sobreviver a uma segunda tentativa de impeachment no Congresso, teve que recorrer a medidas financeiras drásticas para apaziguar os efeitos da inflação descontrolada no Peru.

Uma guerra do outro lado do mundo

O governo peruano atribuiu o aumento dos preços dos combustíveis à guerra russa na Ucrânia, consequência da decisão dos líderes mundiais de isolar Moscou dos mercados de petróleo, que fez com que o preço do barril disparasse. Para o Peru, o impacto da situação é especialmente grave.

Ao contrário de outros países da América Latina, como Venezuela ou Argentina, o Peru importa a maior parte de seu petróleo

Ao contrário de outros países da América Latina, como Venezuela ou Argentina, o Peru importa a maior parte de seu petróleo. Isso o deixou completamente exposto ao recente aumento, que teve repercussões imediatas na economia do país no momento em que começava a se recuperar do impacto da pandemia de Covid-19.

Como resultado, a inflação do Peru em março foi a mais alta em 26 anos. Da mesma forma, o setor mais afetado foi o de alimentos e combustíveis, que viram aumento de cerca de 10%.

Com os aumentos de preços desenfreados, não demorou para que os protestos dos setor de transporte se espalhassem pelo país. Em 28 de março, um grupo de caminhoneiros convocou greve geral para exigir redução no preço da gasolina. Os bloqueios de estradas levaram ao fechamento de escolas em algumas regiões, que tiveram que recorrer novamente ao aprendizado virtual.

Para tentar aplacar o descontentamento, Castillo eliminou o imposto seletivo sobre o consumo de combustível até junho. Também decretou um aumento de 10% no salário mínimo, que passará de 930 soles para 1.025 soles (cerca de US$ 280) a partir de 1º de maio. A medida, no entanto, não terá impacto nos trabalhadores informais, setor que chega a representar 73% do mercado de trabalho nas áreas urbanas.

Em 2022, a inflação no Peru deve se manter um pouco abaixo de 7%, mas os preços da cesta básica vêm disparando. Este aumento se acelerou desde o início da guerra entre a Ucrânia e a Rússia, que afetaram os preços do trigo e do milho.

Segundo o FMI, o aumento do preço do petróleo prejudica os importadores da América Central e do Caribe, enquanto os exportadores de petróleo bruto, cobre, minério de ferro, milho, trigo e metais podem cobrar mais e, assim, mitigar o impacto do conflito.

O preço dos fertilizantes subiu 16% em março, um recorde nos últimos 15 anos

O afastamento dos mercados globais da Rússia, maior exportador de fertilizantes, levou a uma disparada nos preços desses insumos. Os governos regionais enfrentam a situação de encontrar formas de garantir nutrientes para as lavouras, aumentando as preocupações sobre a aceleração da inflação alimentar.

De acordo com o índice norte-americano de fertilizantes da Green Markets, o preço dos fertilizantes subiu 16% em março, um recorde nos últimos 15 anos. O preço do nutriente mais utilizado, a uréia, subiu 22%.

Enquanto os preços de produtos básicos como milho e trigo sobem, a guerra em um dos celeiros do mundo ameaça levar milhões à fome. Diante da crise, os governos regionais estão tendo que apelar aos órgãos internacionais. Em reunião da Organização para a Alimentação e Agricultura (FAO) das ONU, o Brasil, principal importador de fertilizantes do mundo, solicitou que os nutrientes agrícolas fossem excluídos das sanções impostas à Rússia.

O Brasil, superpotência agrícola e líder de exportações de soja, café e açúcar, depende de fertilizantes importados para produzir seus alimentos. Atualmente, importa 85% dos fertilizantes que usa, tendo a Rússia como seu principal fornecedor. Enquanto a guerra continuar, o país ficará exposto aos aumentos dos insumos e, consequentemente, dos preços dos alimentos, o que podem levar a repercussões populares, como no Peru.

O descontentamento no Peru e a escassez geral de produtos exportados pela Rússia e pela Ucrânia na região mostram que a guerra tem desdobramentos que vão muito além, afetando inclusive a segurança alimentar na América Latina. Esse cenário mostra que a América Latina precisa redobrar seus esforços para tornar-se menos dependente e vulnerável ​​a possíveis guerras ou crises futuras.

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