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Cresce a pressão pelo impeachment de Bolsonaro. É suficiente?

Sua cruzada anti-vacina e a catástrofe sanitária em Manaus causaram indignação. Mas Bolsonaro ainda conta com apoio no Congresso.

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28 January 2021, 4.38pm
Artur Widak/NurPhoto/PA Images

Motivos legais para o impeachment do presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, existem desde os primeiros meses de seu mandato. O que faltou foi apoio político.

Os ventos podem estar mudando, mas ainda é incerto se eles são suficientemente fortes para redirecionar o rumo do navio. Bolsonaro é atualmente alvo de mais de 60 pedidos de impeachment no Congresso, com enfoque em seu tratamento da pandemia de Covid-19. Até alguns meses atrás, estes esforços se concentravam entre grupos de esquerda, mas os mais recentes já contam com o apoio de grupos mistos e até mesmo religiosos.

Os grupos de oposição a Bolsonaro viram uma clara oportunidade de voltar a fazer barulho após a derrota do ex-presidente americano Donald Trump, em novembro. Com o afastamento do mais importante porta-voz do movimento de extrema-direita promovido por Bolsonaro, ficou claro que seu apoio sofreria um baque.

O cenário global foi agravado por uma série de crises internas exacerbadas pela segunda – e ainda mais grave – onda de Covid-19, que tem o Brasil como um de seus principais protagonistas.

Entre as crises mais graves estão, por um lado, a guerra que Bolsonaro lançou contra a vacina Coronavac, que está sendo produzida no Brasil em parceria com o laboratório chinês Sinovac e, por outro, a negligência estatal diante do surto de Covid-19 nos estados amazônicos, simbolizada pela tragédia em Manaus, onde mais de mil pessoas morreram nos primeiros 21 dias de janeiro, dezenas delas sufocadas por falta de oxigênio nos hospitais.

Desde janeiro de 2019, quando Bolsonaro tomou posse, o Brasil vive em um estado constante de crise, mas nunca o apoio para seu impeachment foi tão alto quanto agora.

A corrida da vacina

Em meados de 2020, o governador do estado de São Paulo João Doria, e provável candidato pelo PSDB nas eleições presidenciais do ano que vem, anunciou que compraria a vacina Coronavac, desenvolvida pelo Instituto Butantan em São Paulo, e que sua administração estava trabalhando em um plano de vacinação que começaria em janeiro.

Bolsonaro se tornou possivelmente o único líder no mundo a celebrar a morte de um voluntário durante os testes da vacina e a lastimar a vacinação de seu primeiro cidadão

Na época, governadores de outros estados mostraram interesse em comprar doses da Coronavac de São Paulo. Pouco depois, o ministro da Saúde Eduardo Pazuello anunciou que o governo federal compraria 46 milhões de doses da vacina, o que foi interpretado por parte da base eleitoral de Bolsonaro como uma traição do ministro e uma derrota para o presidente.

Ameaçado, Bolsonaro garantiu que não compraria uma única dose da "vacina chinesa" em resposta a um apoiador em sua página do Facebook, que acusou Pazuello de agir como cabo-eleitoral de Doria.

Em outubro, quando a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) teve que suspender os testes da Coronavac após a morte de uma voluntária, que resultou não ter relação com a vacina, Bolsonaro comemorou, dizendo que a morte representava uma vitória para ele. Quando a primeira pessoa recebeu a vacina no Brasil ao lado de Doria, Bolsonaro e seus apoiadores atacaram a enfermeira.

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Em 17 de janeiro de 2021, a enfermeira Mônica Calazans tornou-se a primeira brasileira a ser vacinada contra o novo coronavírus. | Xinhua News Agency/PA Images

Assim, Bolsonaro não só se tornou possivelmente o único líder no mundo a celebrar a morte de um voluntário durante os testes da vacina e a lastimar a vacinação de seu primeiro cidadão, mas também transformou Doria em herói, que não teve que fazer mais do que seu trabalho para vencer esta corrida.

A crise em Manaus

Após meses de conturbação, o Brasil se viu no meio de um dos piores surtos de infecções do país. Janeiro foi marcado pela grave situação em Manaus, capital do Amazonas, onde as mortes por asfixia chocaram o país.

Diante da situação, a Venezuela enviou tanques de oxigênio e médicos ao estado, o que muitos interpretaram como uma humilhação para o governo Bolsonaro.

A situação era impossível de ignorar, e aumentou a pressão por responsabilizar Bolsonaro. Indignado, o povo voltou a fazer os panelaços que marcaram as primeiras semanas da pandemia no Brasil, quando ficou claro que o presidente não iria tomar medidas para proteger a população.

O fator agravante

O fim auxílio emergencial de 600 reais mensais para compensar a perda de renda dos trabalhadores informais, microempresários individuais, trabalhadores autônomos e desempregados somou-se a esta série de crises.

Como os processos de impeachment são, acima de tudo, um julgamento político, Bolsonaro ainda tem algumas vantagens

O resultado foi imediato. Em janeiro, a popularidade de Bolsonaro despencou de 37% para 26% e a rejeição de sua gestão subiu de 26% para 41%.

A cruzada de Bolsonaro contra a Coronavac não era uma que ele poderia vencer. Afinal de contas, a população precisa ser vacinada e a melhor opção para o Brasil é aquela que está sendo desenvolvida localmente.

Com mais de 220 mil mortes, que de uma forma ou de outra já tocaram toda a população, a grande maioria dos brasileiros não está preocupada com o que está escrito nas ampolas. Os brasileiros querem saber que poderão ser vacinados.

Diante deste cenário, Bolsonaro foi forçado a mudar seu discurso. Esta semana ele começou a defender a vacinação da população como uma forma de recuperar a economia. Aparentemente, Bolsonaro entendeu que sua conhecida estratégia de governar através do caos, negacionismo e conspirações não tem o efeito desejado quando as pessoas estão olhando a morte nos olhos.

Mas será suficiente?

Como os processos de impeachment são, acima de tudo, um julgamento político, Bolsonaro ainda tem algumas vantagens.

Em primeiro lugar, seu vice-presidente não é uma figura política forte. O general Hamilton Mourão não tem apoio suficiente entre a elite política para governar o país. Além disso, seu partido, o PRTB, é pequeno e inexpressivo.

Por outro lado, a Câmara dos Deputados elegerá na próxima semana um novo presidente para substituir Rodrigo Maia, que teve um papel importante durante a pandemia fazendo oposição a Bolsonaro. Um dos favoritos para assumir o cargo é Arthur Lira, um aliado de Bolsonaro que recentemente argumentou que a pandemia não pode ser usada para remover o presidente.

Uma vez que Bolsonaro tem um apoio relativamente forte no Congresso, as chances de impeachment ainda são pequenas. Mas de qualquer forma, as atitudes da população parecem estar mudando, o que é uma boa notícia para as eleições de 2022. Se a pandemia nos ensinou alguma coisa é que a estratégia de governo inspirada nos reality shows não funciona em tempos de crise – uma dura lição que muitos brasileiros tiveram que pagar com suas vidas.

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