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A invasão da Ucrânia bagunça tabuleiro geopolítico na América Latina

Apesar da distância geográfica, o conflito europeu expôs as rachaduras entre os interesses políticos de cada país

Refugiados dentro de um trem
Civis evacuados da guerra no leste da Ucrânia chegam a Kiev, em 3 de março
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Por seu caráter violento e inédito na Europa desde a Segunda Guerra Mundial, a agressão russa à Ucrânia vai reconfigurar os espaços geopolíticos e ideológicos que definem o mundo desde o fim da Guerra Fria. A batalha em Kiev não é mais entre capitalismo e comunismo, mas entre a democracia liberal europeia e a tirania russo-soviética.

Mas às vezes a história se move mais rápido do que as mentes, e as tradições ideológicas herdadas são difíceis de atualizar quando a realidade muda de repente. As feridas dos ultrajes e da violência do imperialismo norte-americano na América Latina no século 20, para não mencionar as do colonialismo europeu anterior e contemporâneo, continuam abertas.

Assim, condicionados por esses fatores, os governos latino-americanos vêm se posicionando em relação à guerra entre a Rússia e a Ucrânia.

O distanciamento dos EUA da região deixou um vazio que outros atores vêm preenchendo, desde o crime organizado até os interesses chineses e russos

É fundamental entender de onde vêm esses pronunciamentos e, sobretudo, como e por que ocorreu a reaproximação entre alguns governos do Sul Global e o governo Putin.

Em fevereiro deste ano, pouco antes da escalada do conflito, o vice-primeiro-ministro russo, Yuri Borisov, visitou vários países latino-americanos. Borisov se encontrou com o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e com os líderes da Nicarágua e Cuba, três regimes há muito apoiados pela Rússia. Da mesma forma, o presidente russo,Vladimir Putin, se reuniu com Jair Bolsonaro, do Brasil, e Alberto Fernández, da Argentina, países tradicionalmente distantes da Rússia. Ambos os presidentes buscam oportunidades econômicas e vantagens com um interlocutor disposto a fazer negócios para desestabilizar a ordem.

O distanciamento dos Estados Unidos da América Latina nas últimas duas décadas deixou um vazio que outros atores vêm preenchendo, desde o crime organizado até os interesses chineses e russos.

Após alguma hesitação inicial, e diante de uma perigosa escalada no conflito entre Rússia e Ucrânia, Brasil e Argentina oficialmente condenaram a invasão russa. No entanto, houve também certa ambivalência, uma vez que ambos os países evitaram acusar a Rússia de levar a cabo uma "invasão ilegal" merecedora das mais severas sanções, uma asserção fortemente partilhado pelos EUA e a União Europeia, e que conta com a adesão de países da região governados por líderes tanto de esquerda como de direita, incluindo Colômbia, Equador, Costa Rica, Peru e Chile.

Essas rachaduras mostram que, diante do cenário complexo e mutável da guerra na Ucrânia, há alguma penetração e influência russa na América Latina e o que acontece em solo ucraniano não será indiferente à região e terá consequências políticas irreparáveis.

Duas das capitais historicamente aliadas políticas da Rússia, Caracas e Manágua, cortaram comunicação com Bogotá

Simbolizando a extensão da repercussão da guerra entre os ministérios das Relações Exteriores na América Latina, duas das capitais historicamente aliadas políticas da Rússia, Caracas e Manágua, cortaram comunicação com Bogotá, a capital colombiana. Esse tipo de dilema diplomático e político influencia tensões já graves para o hemisfério sul, como a complexa crise humanitária na Venezuela que já levou mais de 6 milhões de pessoas a deixarem o país nos últimos anos — a maior leva de refugiados do mundo depois da Síria.

Essas posições diversas e opostas podem, se persistirem, atrasar a já enfraquecida integração regional na América Latina, fundamental para o avance de sua agenda de inserção internacional e para a superação coletiva da crise econômica e social agravada pela pandemia de Covid-19. Apesar de seus esforços, Putin não conseguiu dividir os 27 países da União Européia com esta guerra, mas divide a comunidade latino-americana.

Com os números de infecções por Covid-19 em queda na região, esperava-se que a articulação entre blocos sub-regionais, como a Aliança do Pacífico e o Mercosul, melhorasse o diálogo entre os países, o que não aconteceu com vacinas, diferentemente da Europa, que mutualizou a compra e distribuição dos imunizantes. A Covid-19 paralisou os cenários de diálogo multilateral, que agora serão mais difíceis de consolidar se as rachaduras ideológicas causadas pela invasão da Ucrânia se aprofundarem.

A América Latina responde

Após a invasão, a Rússia encontrou aliados incondicionais ​​em alguns países latino-americanos. Cuba, Venezuela e Nicarágua declararam seu apoio ao Kremlin e legitimaram a operação militar de Putin contra a Ucrânia. Mesmo assim, não ousaram votar contra a resolução da Assembleia Geral da ONU que condenou a agressão russa. Em vez disso, Cuba e Nicarágua se abstiveram de votar, assim como a Bolívia. O voto da Venezuela não foi computado por falta de pagamento de sua adesão à ONU.

Em mensagem televisionada antes da invasão, Maduro perguntou: “O que o mundo quer? Que o presidente Putin fique sentado de braços cruzados e não haja em defesa de seu povo?". Em ligação telefônica com Putin transcrita pelo Kremlin, Maduro “manifestou forte apoio às ações decisivas da Rússia, condenou a atividade desestabilizadora dos Estados Unidos e da OTAN e enfatizou a importância de combater a campanha de mentiras e desinformação lançada por países ocidentais”. Após a invasão da Ucrânia, Maduro reafirmou sua posição.

Há apenas um mês, Fernández ofereceu a Putin seu país como 'porta de entrada para a América Latina'

A posição de Maduro é compartilhada pelo Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), que afirma que a Rússia tem o direito de se defender diante da constante ameaça de potências imperialistas, uma narrativa que repercute na Venezuela. Com seu posicionamento, o governo bolivariano, que sobrevive em parte graças a importantes créditos russos, demonstra sua total dependência política da Rússia. De fato, o chanceler Félix Plasencia escreveu em sua conta no Twitter que "a paz na Rússia é a paz no mundo".

Durante a escalada retórica que precedeu a guerra, a Rússia chegou a ameaçar implantar mísseis na Venezuela, já um cliente tradicional de suas armas.

Seguindo os passos de Maduro, o governo nicaraguense de Daniel Ortega também mostrou apoio incondicional a Putin. O presidente aplaudiu a decisão do Kremlin de reconhecer a independência de Donbass e Lugansk e criticou as sanções impostas pelos Estados Unidos e pela União Européia em resposta à invasão. A fraternidade entre os dois países é extensa. No mesmo dia em que a Rússia iniciou a guerra, o presidente da Duma (parlamento russo), Vyacheslav Volodin, visitou Manágua em meio a grandes demonstrações de afeto.

Outros países da região, no entanto, têm se manifestado abertamente em sua oposição à invasão russa da Ucrânia, como México, Colômbia, Chile, Costa Rica, Peru e Equador. Embora não tenham rompido relações com a Rússia, rejeitam abertamente a invasão.

Por sua vez, Bolsonaro mantém uma posição ambígua. De acordo com o presidente brasileiro, os interesses brasileiros envolvem garantir o fornecimento de fertilizantes russos para a agricultura, uma questão "sagrada", segundo ele. No entanto, Bolsonaro parece interessado em garantir apoio de Putin para a sua campanha eleitoral, como sua recente visita ao Kremlin sugere.

Embora por motivos diferentes, a Argentina também se aproximou de Moscou. Em visita a Moscou em 3 de fevereiro, Fernández agradeceu a Putin pelas remessas da vacina "Sputnik" e ofereceu seu país como "porta de entrada para a América Latina". Fernández suavizou seu discurso após a invasão, mas o abandonou completamente. Fernández condenou a invasão e votou contra a invasão na Assembleia Geral da ONU, mas não disse que romperá com Putin. Para setores da velha esquerda argentina, pátria de Che Guevara, qualquer oportunidade de culpar o "imperialismo ianque" deve ser aproveitada.

As posições conflitantes de alguns líderes latinos mostram que as divisões entre democracias liberais e autocracias são profundas na região. Essa guerra na Europa, apesar de acontecer a milhares de quilômetros da América Latina, pode acabar com as esperanças de uma real integração regional e de uma estratégia de saída coordenada da pandemia. O que não aconteceu durante a longa crise da Covid-19, hoje desapareceu entre a fumaça das bombas que enevoam Kiev.

Francesc Badia i Dalmases

Francesc Badia i Dalmases

Francesc Badia i Dalmases is a journalist, a film producer, and the founder of democraciaAbierta, the Latin American associate section of openDemocracy.net, London. A political analyst, author, and publisher, Francesc specializes in geopolitics and international affairs. Francesc is a regular contributor to international newspapers like El País or The Guardian, a Pulitzer Center grantee, and was awarded the prestigious Gabo Prize in 2021 for his work in the Amazon.

Instagram: francescbadiaidalmases3

Francesc Badia i Dalmases es periodista, productor audiovisual, y es el fundador de democraciaAbierta, la sección latinoamericana afiliada a opendemocracy.net. Francesc es también analista político, escritor y editor, especializado en geopolítica y asuntos internacionales. Francesc publica regularmente en medios internacionales como El País o The Guardian, es Pulitzer grantee y recibió el prestigioso Premio Gabo en 2021 por sus trabajos en la Amazonía.

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Juanita Rico

Periodista de democraciaAbierta. Literata de la Universidad de los Andes con Maestría en Periodismo de la Universidad del Rosario, una especialización en Business intelligence y Big Data de la Universidad del Rosario y otra en Marketing Digital en la Universidad de los Andes. Interesada en el periodismo ambiental, de derechos humanos y género y en el rol de las redes sociales y el big data para el periodismo y la democracia.

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