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Emergência climática: as promessas vazias de Bolsonaro para o Brasil

Enquanto o presidente afirma proteger as florestas, sua liderança permitiu que a devastação da Amazônia atingisse níveis recordes

Juanita Rico
27 Outubro 2021, 12.00
Árvores derrubadas para plantio de soja na Amazônia
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BrazilPhotos/Alamy Stock Photo

O maior país da América Latina é um dos menos comprometidos com a redução de suas emissões de CO2 e com o combate às mudanças climáticas.

Em abril de 2021, o desmatamento na Amazônia brasileira bateu recordes globais. Com um total de 580 km2 de floresta perdida em apenas um mês, o Brasil atingiu um novo recorde, de acordo com o Sistema de Detecção do Desmatamento na Amazônia Legal em Tempo Real (DETER). Em 2020, o número total foi de assustadores 10.851 km2 desmatados.

Naquele mesmo mês, durante a Cúpula de Líderes sobre o Clima liderada pelo presidente dos EUA, Joe Biden, o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, se comprometeu a tomar medidas sérias para acabar com o desmatamento ilegal no país até 2030. No entanto, desde que chegou ao poder no início de 2019, a devastação da selva amazônica atingiu alguns de seus piores patamares, e sua política ambiental tem sido amplamente criticada. Bolsonaro é conhecido por defender a exploração de recursos naturais na região amazônica, até mesmo em terras indígenas, e por facilitar a ação de quem ataca diretamente o meio ambiente, como mineradoras e comerciantes ilegais de madeira.

De fato, em agosto de 2019, o openDemocracy revelou que Bolsonaro tinha planos secretos para facilitar a extração de madeira na Amazônia por meio de uma campanha de difamação contra as comunidades indígenas que a habitam e a protegem.

Como resultado de sua ações, a Rolling Stone descreveu Bolsonaro como "o negacionista climático mais perigoso do mundo".

Diante desse cenário, foi uma grande surpresa que, em 19 de outubro, durante a visita do presidente colombiano, Iván Duque, ao Brasil, Bolsonaro e Duque prometeram participar da COP26, conferência do clima da ONU na Escócia que começa no dia 31 de outubro, juntos, "unidos" por um objetivo: defender a Amazônia.

“Com toda a certeza chegaremos unidos em Glasgow para tratarmos de um assunto muito importante e caro para todos nós: a nossa querida, rica e desejada Amazônia”, disse Bolsonaro após um encontro com Duque no palácio presidencial do Planalto, em Brasília.

Bolsonaro também disse que quer dar passos em direção a uma transição energética eficiente e redução de emissões de carbono. Ele também reafirmou que acabará com o desmatamento no Brasil até 2030.

Embora uma mudança positiva, observadores internacionais apontam que o Brasil ainda não registrou oficialmente suas promessas em instrumentos ou organizações internacionais. Além disso, o país vem prometendo desmatamento zero até 2030 por seis anos consecutivos, desde que a ex-presidente, Dilma Rousseff, o prometeu pela primeira vez na Assembleia Geral da ONU.

Outra verdade pessimista é que, além das promessas não oficiais, o Brasil não apresentará uma nova NDC (contribuição nacionalmente determinada ao esforço global de redução de emissões) em Glasgow. Isso evidencia que não existe um caminho específico para cumprir as promessas que o país vem fazendo.

Especialistas em clima apontaram que a última NDC do Brasil, lançada em dezembro do ano passado, permite ao país poluir mais do que sua meta anterior, apresentada em 2015. A meta mais recente permite que o Brasil emita cerca de 360 ​​milhões de toneladas a mais de carbono do que a definida há seis anos.

Como parte da NDC de dezembro de 2020, o Brasil definiu uma meta indicativa de alcançar a neutralidade de carbono em 2060, dez anos depois do que o que o presidente vem prometendo mais recentemente. Para atingir esse objetivo, a NDC também estabeleceu uma condição: o recebimento de repasses financeiros. O país não forneceu informações específicas, seja em sua NDC ou em qualquer outro lugar, sobre se a promessa de Bolsonaro de combater o desmatamento na Cúpula de Líderes sobre o Clima foi uma promessa real e, em caso afirmativo, como seria cumprida.

Se o número do desmatamento no país continuar aumentando, não há maneira plausível de atingir as metas de 2030 ou 2050. É verdade também que, durante o governo Bolsonaro, houve um desmonte sistemático dos marcos institucionais e jurídicos brasileiros para a proteção das florestas, o que leva o país na contramão de seus compromissos.

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Dado o papel fundamental exigido pelos setores de uso da terra e florestal para que o Brasil cumpra as prometidas reduções de carbono e a importância das florestas brasileiras para o mundo, Bolsonaro tem que reforçar as ações e políticas de mitigação agora, em vez de enfraquecê-las. No entanto, como na maioria dos países amazônicos, os interesses políticos e privados são priorizados acima da conservação do planeta.

Em relação a Bolsonaro, até que haja uma prova sólida e verificável de ação, precisamos tomar seus compromissos com desconfiança e trabalhar com o que ele já demonstrou: negacionismo de como o desmatamento contribui para o aquecimento global.

Bolsonaro é candidato à reeleição no ano que vem e seu principal adversário deve ser o popular ex-presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, que reconquistou seus direitos políticos em março deste ano. As pesquisas hoje mostram Lula cerca de 20% à frente de Bolsonaro nas intenções de voto para as eleições de outubro de 2022. Durante o último mandato de Lula, que terminou em 2010, o desmatamento da Amazônia diminuiu significativamente.

Bolsonaro, às vezes conhecido como "Trump dos Trópicos", é visto por muitos como um dos principais obstáculos na luta global contra a emergência climática. Inevitavelmente, todos os preocupados com a mudança climática acompanharão de perto a eleição no Brasil.

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