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Honduras elege presidente mulher de esquerda. O que isso representa para a região?

Com a vitória de Xiomara Castro, o progressismo tem outra chance após 12 anos de uma direita corrupta, miséria e violência extrema

democracia Abierta
8 Dezembro 2021, 12.00
Xiomara Castro, presidente eleita de Honduras
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Alamy Stock Photo

Xiomara Castro, do partido de esquerda Libertad y Refundación (Libre), venceu as eleições na semana passada, transformando-se na primeira mulher presidente de Honduras, um dos países mais afetados pela crise da pandemia de Covid-19 e desastres naturais na América Latina.

Castro derrotou Nasry Asfura, do governista Partido Nacional (PN), em uma eleição em que a contagem dos votos durou quase quatro dias, o que preocupou os hondurenhos, dados os antecedentes do país. Nas eleições de 2017, os números mudaram repentinamente a favor de Juan Orlando Hernández quando a contagem dos votos foi retomada após paralisação de longas horas, o que suscitou acusações de fraude.

"Vamos formar um governo de reconciliação, paz e justiça. Vamos iniciar um processo para garantir uma democracia participativa, uma democracia direta", disse Castro, de 62 anos, após sua vitória.

Vestida de vermelho e preto, a nova presidente encerrou seu discurso com "até a vitória sempre", frase usada pelos revolucionários cubanos. Durante sua campanha, a oposição sistematicamente acusou Castro de ser comunista, dada sua proximidade com os governos da Nicarágua e de Cuba. Vale lembrar que Castro é esposa de Manuel Zelaya, o último presidente de esquerda de Honduras.

O que Castro significa para a região?

Castro, que foi primeira-dama entre 2006 e 2009, prometeu dialogar com todos os setores da sociedade hondurenha para que "possamos usar pontos em comum e formar as bases para o próximo governo".

Embora ainda seja cedo para prever o futuro de Honduras, o país certamente terá um presidente diferente. Castro simpatiza com questões como o direito ao aborto, em uma país com algumas das mais rígidas leis anti-aborto, e tem um relacionamento próximo com a China, enquanto o país é tradicionalmente mais próximo dos Estados Unidos.

Da mesma forma, em sua luta para tirar o conservadorismo do poder, Castro selou um pacto com a União Nacional de Oposição de Honduras (Unoh), liderada por Salvador Nasralla, que será vice-presidente.

Durante a campanha, Castro afirmou que pretende "refundar do país", com base num programa de governo que vai procurar reformar leis do governo anterior. Castro não desconsidera, inclusive, convocar uma Assembleia Constituinte para modificar a Carta Magna de Honduras.

Outro ponto importante em sua agenda é, em suas próprias palavras, 'não decepcionar as mulheres'

Em 28 de novembro, dirigindo-se a seus apoiadores, Castro afirmou que faria da luta contra o narcotráfico uma de suas prioridades. Especialistas em direitos humanos asseguraram que os chamados esquadrões da morte voltaram à ativa desde pelo menos 2020. De acordo com os relatos, no último ano, mais de uma dezena de pessoas foram “embaladas”, um estilo de execução associado aos esquadrões da morte em que as vítimas são amarradas e colocadas em sacos plásticos com etiquetas com o dizer "extorsionadores.com".

Outro ponto importante em sua agenda é, em suas próprias palavras, "não decepcionar as mulheres". De acordo com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), em 2020, o sistema de atendimento à mulher em Honduras recebeu mais de 100 mil denúncias de violência doméstica e intrafamiliar.

A presidente eleita também pretende revogar a Lei Orgânica das Zonas de Emprego e Desenvolvimento Económico (ZEDE) de maio de 2021, que estabelece áreas do território nacional sujeitas a um regime especial em que os investidores são responsáveis pela política fiscal, segurança e resolução de conflitos. Para ela, a lei viola a soberania do país, afirmando que há formas mais justas de gerar investimentos e empregos.

Nos últimos anos, Castro vem emergindo como uma ativista apaixonada. Em sua segunda tentativa, Castro se elege presidente sem uma única acusação de corrupção, algo raro em Honduras. Castro tem agora o enorme desafio de resgatar um país assolado pela violência, mudanças climáticas, crise migratória e pobreza, que afeta cerca de 70% de sua população. A presidente eleita surge como uma esperança para a democracia na América Latina, região em que proliferam líderes autoritários e que se encontra atolada em uma crise econômica e social acentuada por uma pandemia que não dá trégua.

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