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Elon Musk e seus reais interesses na Amazônia e na América Latina

O bilionário veio ao Brasil prometendo internet em áreas remotas e proteção à floresta. Mas a região tem mais a dar ou a ganhar?

Manuella Libardi
27 Maio 2022, 12.00
Em 20 de maio, o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, se reuniu com Elon Musk
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Jair Bolsonaro/Twitter

A visita de Elon Musk ao Brasil de Jair Bolsonaro chama atenção por alguns motivos. Em primeiro lugar, porque ocorre em um momento em que Musk, atualmente a pessoa mais rica do mundo, afinca sua aproximação com a direita radical. Segundo, porque se dá poucos meses antes das eleições de outubro, em que Bolsonaro não é o favorito. E terceiro, porque a América Latina está passando por uma nova guinada à esquerda.

Naturalmente, esses três motivos estão interligados e indicam a extensão do interesse – e preocupação – de Musk pela América Latina. Em 20 de maio, Musk chegou ao Brasil para discutir a implantação da Starlink, seu serviço de internet via satélite operado pela SpaceX, na região amazônica.

A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) aprovou a operação comercial da frota de satélites Starlink em janeiro, emitindo uma licença que dura até 2027. Dessa forma, o Brasil se tornou o segundo país da América Latina a permitir a entrada do projeto do bilionário sul-africano, seguindo os passos do Chile.

Lançada em 2019 com ambições globais, a Starlink não teve o sucesso esperado. Em junho de 2021, Musk afirmou que, em algumas semanas, teria satélites distribuídos por todo o mundo. Mas um ano depois, apenas 2% de seus satélites estão fora da América do Norte e da Europa. Depois de anunciar a expansão da Starlink para regiões remotas da América Latina em abril de 2021, Musk vem intensificando seus esforços na região.

Durante sua visita ao Brasil, Musk também anunciou que seus satélites ajudariam a monitorar o desmatamento ilegal na Amazônia brasileira. Ambientalistas expressaram ceticismo sobre suas intenções, uma vez que o monitoramento da região nunca foi um problema. De fato, o sistema de satélites brasileiro, PRODES, opera com eficiência desde 1988.

Considerando que o desmatamento da Amazônia aumentou 56,6% com Bolsonaro, que em 2019 se autodenominou “capitão motosserra”, os reais motivos de seu encontro com Musk sob pretextos ambientalistas levantam suspeitas. Para muitos observadores, o interesse do CEO da Tesla na Amazon é outro.

Região rica em níquel

A América Latina tem vantagens que podem ir além do desejo de Musk de expandir seu projeto da Starlink. Região rica em minerais, a Amazônia também possui amplas reservas de níquel, componente fundamental na produção de baterias para veículos elétricos, que Musk produz por meio da Tesla.

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No início de maio, poucas semanas antes da visita de Musk ao Brasil, a Vale S.A. – a quarta maior mineradora do mundo e a segunda maior produtora de níquel – fechou acordo com a Tesla para fornecimento do mineral. “Elon Musk se encontrar com Bolsonaro para discutir a 'proteção da Amazônia' é uma piada tão ruim que, espero, não convence ninguém”, tuitou Maurício Angelo, fundador do Observatório da Mineração. A Vale extrai níquel de várias partes do mundo, mas, no Brasil, tem operações controversas em terras indígenas na Amazônia.

Um dos principais projetos de Bolsonaro desde que assumiu o cargo é permitir a exploração de recursos naturais em terras indígenas protegidas. Em 2020, Bolsonaro promoveu o Projeto de Lei nº 191, que permitiria a extração de água, recursos minerais e orgânicos em territórios indígenas. O presidente chegou a usar a guerra entre Rússia e Ucrânia como pretexto para impulsar a lei, argumentando que reduziria a dependência do Brasil do potássio russo para a produção de fertilizantes e escancarando sua obsessão pelo assunto.

Fábrica da Tesla no Brasil

Musk já havia demonstrado interesse no país em 2020, quando iniciou conversas com representantes brasileiros para abrir uma fábrica da Tesla no Brasil, que seria a primeira da América Latina. Na época, o lugar mais provável para a fábrica seria Santa Catarina, que já abriga fábricas da BMW e da General Motors.

No final de abril, antecipando a visita de Musk ao Brasil, o governador do Amazonas, Wilson Lima, demonstrou interesse em trazer a fábrica da Tesla para a Zona Franca de Manaus. Wilson afirmou que o assunto estaria na pauta do encontro entre Bolsonaro e Musk, embora não esteja claro se foi discutido ou não. “Venham conhecer a Amazônia! A Amazônia está chamando vocês”, escreveu no Twitter.

Embora o Brasil tenha reservas consideráveis ​​de lítio, necessário para a fabricação de baterias para veículos elétricos, elas não seriam suficientes. Este é um problema para as possíveis ambições de Musk de trazer a Tesla para o Brasil, mas com uma possível solução na vizinhança.

América Latina: a terra do lítio

Além de níquel, a América Latina abriga as maiores reservas de lítio do mundo, incluindo o chamado “triângulo do lítio”. Localizado entre Argentina, Chile e Bolívia, a região concentra mais da metade das reservas conhecidas do mineral. Aqui, como em seu encontro com Bolsonaro, Musk também demonstrou sua crescente afinidade com a política de direita.

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Durante seu governo, o ex-presidente Evo Morales nacionalizou as minas bolivianas, incluindo as de lítio, argumentando que a riqueza natural da Bolívia deveria ser distribuída entre os cidadãos e não canalizada para multinacionais estrangeiras. Quando foi forçado a renunciar após as eleições de novembro de 2019, Morales afirmou ter sofrido um golpe por ter prejudicado os ricos em favor do povo.

Logo após o golpe, alguns apoiadores de Morales e das políticas socialistas na América Latina acusaram o governo dos EUA e seus bilionários, incluindo Musk, que reside no país, de conspirar para tirar Morales da presidência. Em resposta às acusações, Musk deixou claro de que lado estava. “Vamos dar um golpe em quem quisermos. Lide com isso”, Musk disse no Twitter em julho de 2020.

Não há evidências de que Musk tenha interferido no resultado das eleições bolivianas, mas ele não esconde que não lhe convém ter líderes de esquerda nos governos da América Latina, a maioria dos quais possui recursos naturais abundantes.

Desde 2018, a região vem elegendo líderes de esquerda, começando com Andrés Manuel López Obrador no México, que também considera nacionalizar o lítio do país. Desde então, Argentina, Bolívia, Peru, Chile e Honduras deram sequência a essa tendência, que pode se intensificar com as eleições na Colômbia e no Brasil. Com os crescentes movimentos sociais que promovem o respeito ao meio ambiente e clamam por uma mudança radical no sistema político extrativista, especialmente diante da possibilidade de uma nova Constituição progressista no Chile, a América Latina pode se tornar território hostil para bilionários acostumados a políticos neoliberais que governaram na última década.

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