democraciaAbierta: Opinion

Migrantes da América Central: cada vez mais ameaçados por acidentes de trânsito

As 55 vítimas fatais no México são o resultado da crescente imprudência dos coiotes diante do aumento da repressão à imigração

Manuella Libardi
20 Dezembro 2021, 12.00
Dezenos de migrantes morreram em um acidente de caminhão na rodovia Tuxtla-Chiapa de Corzo em Chiapas, no México, em dezembro de 2021
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Toya Sarno Jordan/REUTERS/Alamy Stock Photo

A morte de pelo menos 55 centro-americanos em um acidente de caminhão no México perto da fronteira com a Guatemala este mês destaca o perigo da jornada a que os migrantes se submetem, mesmo em situações normalmente menos arriscadas.

Em 10 de dezembro, o caminhão tombou quando o motorista aparentemente fez uma curva acentuada em velocidade excessiva, fazendo com que o trailer se chocasse contra uma passarela e uma obra. O caminhão transportava pelo menos 160 pessoas, em sua maioria guatemaltecas, um número absurdo se considerarmos que um ônibus normal tem capacidade para cerca de 40 pessoas, um ônibus articulado para cerca de 60 e um ônibus de dois andares para 80.

O acidente representa um dos mais mortais envolvendo migrantes em décadas, mas não foi o único do ano. Em março, um SUV da Ford que transportava 25 migrantes mexicanos colidiu com um trator na Califórnia, perto da fronteira mexicana, matando 13 pessoas. O carro tinha capacidade legal para transportar sete ou oito pessoas.

Oportunidades econômicas para coiotes

Os riscos nas rotas migratórias da América Latina para os Estados Unidos são diversos, mas as condições precárias de transporte figuram cada vez mais alto na lista. Isso se deve ao aumento da repressão na fronteira e à queda da circulação migratória de latino-americanos nos Estados Unidos, que se refere ao movimento legal de trabalhadores temporários que cruzam a fronteira de forma sazonal para trabalhar e retornam aos seus países, conforme explica Joel Millman, da Organização Internacional para Migrações.

Cruzar a fronteira dos Estados Unidos tornou-se mais difícil. Assim, os coiotes passaram a assumir riscos mais altos para aumentar os lucros

As migrações circulares começaram a diminuir após a recessão de 2008-09, quando o volume da imigração mexicana nos Estados Unidos caiu significativamente, o que coincide com o aumento da fiscalização fronteiriça implementado pelo governo de George W. Bush, como explica o American Immigration Council.

Como resultado, cruzar a fronteira dos Estados Unidos tornou-se mais difícil, dando mais oportunidades econômicas aos chamados “coiotes”, ou contrabandistas que ajudam os migrantes a entrar no país de forma irregular. Assim, os coiotes passaram a assumir riscos mais altos para aumentar os lucros, o que inclui dirigir veículos inseguros e cada vez mais abarrotados de gente, aumentando a chance de acidentes fatais. “A relação que os migrantes têm com as pessoas que os transportam tende a ser muito mais difícil hoje porque estão lidando com uma classe de contrabandistas mais criminosa do que existia há uma geração. Claramente, isso se reflete no número de mortes”, explica Millman.

O preço cobrado pelos coiotes varia amplamente, mas os valores normalmente oscilam entre US$ 6 mil e US$ 10 mil, de acordo com um estudo de 2019 do Homeland Security Operational Analysis Center.

Aumento da migração – e da violência

Os Estados Unidos viram um aumento na migração irregular entre outubro de 2020 e o mesmo mês de 2021, ultrapassando 1,7 milhões — um número nunca visto desde que o governo iniciou ou rastreou o fenômeno. Os mexicanos e centro-americanos representam 78% desses migrantes.

Entre 2014 e 2019, mais de 3,8 mil migrantes morreram em rotas migratórias em todo o continente, quase 3,5 mil deles na fronteira entre o México e os Estados Unidos, de acordo com as Nações Unidas.

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América Central, México e Estados Unidos não podem mais ignorar os problemas que levam milhares de centro-americanos a formar caravanas na tentativa de migrar.

No caso dos centro-americanos, sua jornada torna-se mais perigosa porque têm de atravessar áreas dominadas pelo narcotráfico não só em seus países de origem, mas em todo o México, onde a fragmentação dos cartéis intensificou a disputa territorial e, consequentemente, a violência.

Entre setembro de 2008 e fevereiro de 2009, 9.857 migrantes centro-americanos foram vítimas de cartéis no México, com pelo menos 198 sequestros relatados, de acordo com a Comissão Nacional de Direitos Humanos do México. Cerca de 30% dos migrantes afirmam ter sofrido violência durante o trajeto, de acordo com um estudo realizado entre 2009 e 2015.

Os migrantes são alvos fáceis para os cartéis porque não têm respaldo legal ou institucional. “Eles não denunciam [os crimes] porque são ameaçados e não sabem a quem recorrer. A maioria dos sequestradores tem vínculos com as autoridades, o que torna virtualmente impossível tomar medidas contra eles. É o negócio perfeito”, disse Guadalupe Correa-Cabrera, especialista em tráfico de drogas e imigração da Universidade George Mason em Fairfax, à NBC News em outubro.

Migração sanitária e climática

O processo se tornou mais dramático em face das crises humanitárias e econômicas impostas aos países centro-americanos pela emergência climática e pela pandemia de Covid-19. Do ponto de vista econômico, a América Latina foi a região foi mais afetada pela crise sanitária, o que levou muitos latino-americanos a deixar seus países em busca de oportunidades em outras regiões.

Os anos pandêmicos também coincidiram com a pior temporada de furacões registrada na história. Dois furacões de categoria 4, sendo 5 a pior, devastaram a América Central em novembro de 2020, afetando países que já sofriam com secas intensas devido aos padrões climáticos erráticos no chamado Corredor Seco desde 2014.

Reverter os efeitos econômicos negativos da pandemia levará anos, senão décadas. Governos e líderes mundiais não têm feito o suficiente para mitigar o avanço do aquecimento global. Nesse cenário, podemos esperar que as ondas de migração da América Central continuem a aumentar nos próximos anos — e com elas o número de cidadãos dispostos a arriscar suas vidas e as de seus filhos em rotas migratórias predatórias.

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